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segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Seqüelas 3 - A conta da farmácia

No consultório, o oftalmologista rascunha uma receita que, pelo tanto de letras usadas para escrever o nome de cada medicamento, vai me custar um mês de salário.

Na farmácia, a atendente coloca sobre o balcão todos aqueles frascos.

- A senhora vai levar?

- Tem genérico aí?

- Esse tipo de medicamento não tem genérico.

- Tenho a opção de não levar?

- Só se a senhora não quiser ficar boa.

Resposta sensata da moça, afinal a comissão dela depende do meu tratamento levado a termo com responsabilidade e obediência às orientações do médico.

No caixa, me senti vários reais mais pobre.

Seqüelas 2 - Mutação Genética


A melhor tradução para o que aconteceu comigo pertence à minha irmã. Ao me ver transformada pela Síndrome de Steven Johnson, exclamou: "você virou um mutante!" É isso aí, eu sou um X-Men. Agora dá para entender porque a fixação pela fênix. Já vi a morte de perto, lutamos boxe por quase um mês. Ganhei por nocaute técnico.

Seqüelas - Síndrome de quê?

Há seis anos tive uma crise braba de alergia que atende pelo pomposo nome de Síndrome de Steven Johnson. Tradução: farmacodermia - doença provocada por alergia ou intolerância a um fármaco (remédio). Basicamente, o que a síndrome faz é atacar todas as células boas, as mucosas ficam queimadas, o estrago é comparável ao de uma bomba atômica, explodindo de dentro para fora. Tanto tempo depois, quatro cirurgias no olho direito e ainda às voltas com as seqüelas, gasto um post do blog não para relembrar o pesadelo dos 18 dias de internação hospitalar, mas para registrar que continuo confiante na cura.

quarta-feira, 23 de julho de 2008

Disparo contra os médicos


Plantão Médico - série de TV

Os jalecos brancos que os médicos tanto gostam de exibir pelas ruas da cidade não os protegem apenas da poeira - que aliás levam para dentro dos hospitais, clínicas e corpos dos doentes. Servem também para preservá-los das necessidades reais de seus pacientes.

Médicos tendem a acreditar que apenas eles têm compromissos que devem honrar e horários a cumprir, que aliás, bem poucos cumprem de fato.

Já ouvi dizer que certas profissões tem uma impáfia adquirida junto com o diploma. Jornalistas e advogados são os exemplos favoritos de profissional arrogante e que se sente acima do bem e do mal. Os médicos devem figurar nessa lista, encabeçar o ranking. Poucos são os que de fato respeitam os pacientes e lembram deles como pessoas e não como um número de convênio particular. Para esses, meus respeitos e não se sintam ofendidos com o post. Minha bronca não é com vocês.

Infelizmente, a maioria dos profissionais de medicina seleciona os pacientes pelo status que eles ocupam na cadeia da saúde. Aqueles atendidos pelo SUS recebem cinco minutos de consulta mal-humorada. Os pacientes de convênios particulares estão acima daqueles do sistema público, mas também são divididos por castas. Quem tem o convênio mais caro, recebe mais atenção.

Para ser justa, devo acrescentar que essa estratificação social dos pacientes através da conta bancária não é prerrogativa apenas dos médicos, que estão no topo da cadeia no atendimento hospitalar. Enfermeiras, que vêm logo abaixo, também costumam se comportar da mesma forma. Responsáveis, em boa parte dos casos, pela agenda dos médicos, principalmente no que diz respeito a marcação de cirurgias, as enfermeiras também carecem de aulas sobre direitos humanos, respeito, como tratar pacientes idosos e precisam ainda serem lembradas de que os pacientes, tanto quanto os médicos, têm uma vida para além dos muros do hospital.

Pacientes e acompanhantes trabalham, por isso, quando uma consulta está marcada para começar as 8h, precisa começar as 8h. Cirurgias marcadas precisam ser cumpridas. Médicos são seres humanos e não deuses, têm filhos para levar à escola, têm gripe, pneu furado, imprevistos como qualquer pessoa. Deviam lembrar que seus pacientes têm vidas privadas parecidas com as suas.

Minha pergunta é: por que o paciente pode esperar duas horas pelo médico e o profissional, por sua vez, não quer atender quem se atrasa 20 minutos para uma consulta? Por que o médico pode desmarcar cirurgia e bagunçar a agenda do paciente? E por último, por que os médicos esquecem que são pessoas cuidando de pessoas? Ainda não encontrei nenhum médico capaz de responder perguntas tão simples.

Talvez eles julguem que não precisam, afinal, boa parte dos cidadãos-pacientes vêem nos médicos, os avatares de personagens saidos de séries como ER - Plantão Médico. Para mim, se boa parte deles não tem a mesma perícia do Dr. House para diagnosticar doenças estranhas, pelo menos se assemelham ao médico da ficção no quesito desrespeito e indiferença aos pacientes.

terça-feira, 15 de julho de 2008

Auto-imunidade

Só quem é auto-imune sabe a loucura que é ter um corpo que briga consigo mesmo. Uma sensação meio esquizofrênica, que se for procurar direito nos anais da psiquiatria ou psicologia, ou até psicoterapia vai ter um freudiano pronto para dizer que a auto-imunidade reflete algum bloqueio ou trauma do passado, de origem sexual, de preferência reprimida.

Assistindo um daqueles programas americanos, estilo documentário, estilo jornalístico, mas que trata de casos estranhos, doenças esquisitas e raras - mais frick show que notícia - fiquei pensando se auto-imunidade pode mesmo ser confundida de forma tão rasteira com auto-punição.

Sem querer entrar no mérito religioso da questão e nem discutir crenças espirituais e cármicas, tem muito teólogo debatendo sobre os deveres, obrigações e resgates de vidas passadas e como não sou versada em religião, embora acenda minhas velinhas, prefiro encarar a questão à luz da razão e daquilo que, como auto-imune, entendo sobre ter as próprias células jogando no time adversário.

O programa americano, que não lembro o nome e nem o canal fechado onde estava passando, mostrava uma doença dessas bem raras, são apenas 500 casos no mundo descritos pela literatura médica. O portador dessa síndrome sofre um processo de calcificação dos tecidos e das articulações. Em estágio avançado da doença, explicando a grosso modo, a pessoa fica com o corpo rígido, transformado todo em ossos ou pelo menos no material que compõem os ossos.

Uma jovem mostrada no programa havia perdido quase todos os movimentos do corpo, mas ainda assim mantinha a esperança de que a cura para o seu problema seria encontrada e que ela iria concluir a faculdade, casar e viver uma vida dita "normal".

Olhando as bochechas rosadas da moça tetraplégica fiquei me perguntando: Como alguém assim, tão cheia de esperanças e planos, tão ansiando por futuro, pode estar somatizando alguma culpa reprimida?

Não tenho a resposta final, mas estou empenhada em refletir a questão. Não descarto explorar com mais detalhes as teorias psicológicas que explicam a somatização de doenças. Admito que existem situações realmente estranhas de explicar como a gravidez psicológica. Considero até aprender mais sobre religião, carma e darma. Mas ainda assim, fica sempre aquela pulguinha atrás da orelha e começo a trazer o problema para dentro do meu espelho. "Estou me punindo por alguma coisa dessa vida ou da outra? É falta ou excesso de auto-estima?" Minha resposta, pelo menos até o nomento, é não.

Entendo que os auto-imunes perderam a loteria genética. Dentro das trilhões, zilhões de possibilidades de combinação dos cromossomos paternos e maternos, alguma coisa saiu fora do padrão considerado normal. A ciência não sabe explicar mas corre atrás das causas, a religião conjectura suas explicações cármicas, a psicanálise investiga o subconsciente, e auto-imunes como a moça americana de bochechas rosadas, vivem, sonham e brigam dia após dia contra a teimosia das próprias células, dispostas a comprar o passe de todas elas e trazê-las para o lado de cá do gramado.