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quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Algumas considerações finais sobre o Carnaval

1 - Que bom que acabou!

2 - Descobri que é possível acordar de ressaca sem ter bebido uma gota de álcool ou consumido qualquer outro tipo de aditivo, exceto chocolates. Ressaca de sono deve ser tão ruim quanto ressaca de cachaça. Atenção às sensações: cabeça pesada, tontura, moleza no corpo, gosto ruim na boca (até água fica esquisita), entorpecimento...

3 - A cidade ontem deserta e deprimida, hoje acordou barulhenta pra caramba. Tem uma fábrica embaixo da minha janela e dois canteiros de obras nas cercanias do prédio onde eu morro. Parem as máquinas, pelo amor de deus!

4 - Acabo de me lembrar que em meio aos plantões momescos, esqueci completamente de fazer o dever de casa!! Preciso definir o meu objeto de estudo e escrever uma apresentação...se é que vocês me entendem. Se não entendem, sem problemas, hoje o dia tá confuso como em toda Quarta-feira de Cinzas que se preza.

5 - Daqui a pouco tem o bom e velho plantão de corujinha da meia-noite. Nada como o conforto da rotina para ajudar a aclarar as idéias.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

A vida na cidade off Carnaval


Costumo admirar a cidade em dias de feriado. Mais até, como já declarei de outras vezes, sinto-me dona das ruas. Desfruto o poder de andar pelas calçadas sem esbarrar em ninguém, deserto de concreto, entregue à contemplação. Mas a solidão da cidade off carnaval não é contemplativa, é mais triste, talvez porque seu oposto, a cidade da folia, alguns quilômetros e viadutos à frente, seja alegre demais. A felicidade fake do Carnaval, com seu colorido berrante e os trios ensurdecedores, como se gritassem EI, É PROIBIDO FICAR TRISTE PELOS PRÓXIMOS SEIS DIAS, embotam e contaminam as ruas desertas da cidade off carnaval.

Desço uma ladeira, em direção ao plantão, ninguém nas ruas. O vigilante de uma obra me dá boa-noite e deseja bom trabalho, sinto um suspiro em sua voz. Resignado em ganhar o pão, não participa do espetáculo lá na outra cidade, as contas se pagam nessa. Ao atravessar o estacionamento de um grande supermercado, que me serve de atalho para alcançar o ponto de ônibus, mais rostos anônimos e dolorosamente tristes empurram carrinhos de compras. São os excluídos da folia. Ou paga-se o abadar, ou compra-se o almoço da semana, lembro de Cecília Meirelles e do eterno dilema que nos cerca, ou isto ou aquilo, eterno estado de escolha da condição humana. Poderiam sair fantasiados de pipoca, os tristes rostos resignados que vejo, mas o risco da cotovelada na costela, do soco no olho, quiçá de uma facada, não vale a pena.

Na rua onde trabalho, luzes só as pálidas penduradas nos postes. São um pouco mais brilhantes no prédio do jornal. A avenida de grande movimento em dias comuns, entrega-se à modorra de um feriado em que somos todos obrigados a gostar de foliar. Um carro para ao meu lado, o motorista, sotaque de fora da Bahia, pede orientações sobre como chegar na Barra. Indico as vias tortuosas que ele vai ter de percorrer, verdadeiro labirinto de vielas pasmacentas. O coitado queria viver cada segundo de festa, mas está hospedado na cidade off carnaval. Com suas ruas desertas, convertidas quase todas em mesma paisagem, essa cidade de tristeza não abre suas fronteiras com facilidade para aqueles que desejam escapar para a outra, aquela que brilha com as cores de Momo.

Respiro o ar deserto da cidade off carnaval e entro na redação, para viver o simulacro de festa que o plantão me reserva. Tédio profundo, mas agora só falta um dia.

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O impacto da cobertura do quinto dia de folia foi reduzido a cena de uma mulher, completamente nua, dançando um pagode de letra grotesca sobre um trio elétrico. Aquilo me falou tão fundo na condição de fêmea, que apelei para bell hooks e escrevi esse desabafo aqui, no Conversa de Menina.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Quarto dia - and the oscar goes to...


A melhor coisa do quarto dia de Carnaval, acreditem, foi a cerimônia do Oscar. Quem quer ser um milionário? comprovou o favoritismo. Quando o oba-oba em torno do filme terminar, eu assisto e tiro minhas próprias conclusões. Embora Danny Boyle seja um nome para se levar em consideração, mesmo que até hoje eu não tenha me dignado a assistir Transpoiting. Tem o DVD aqui em casa há séculos, mas eu não assisti ainda. Tenho umas birras próprias. Lá um dia eu pego e assisto. Na prateleira de Bobbie também tem Pornô, o livro que dá continuidade a história de Transpointing, mas o rosa berrante da capa me assustou um pouco. Não é o número um da minha lista de coisas para ler. Lá um dia, quem sabe, pego e leio.

Entre um trio e outro, de esquelha, dava uma olhadinha na cerimônia na TV da redação. Pincei algumas cenas de Hugh Jackman revivendo seus dias de Broadway e Beauty and the beast, musical que o tornou famoso na Austrália. "O homem mais sexy do mundo" (a culpa provavelmente é do Wolverine), me parece, conseguiu conduzir a cerimônia de maneira digna.

Embora, o excesso do glamour do musical tenha me dado a impressão de que a premiação do Oscar virou um grande palco para Hugh mostrar que sabe cantar e dançar. Fiquei tentando ler as expressões dos outros atores. Deve ser meio difícil agradar uma plateia majoritariamente de colegas de trabalho. Mas o menino Jackman literalmente suou o smoking. A propósito, gosto dele, mas aconselho que risque Austrália (o filme) do currículo.

De qualquer forma, Hollywood fez mais uma sessão de mea culpa, dando um oscar honorário para Jerry Lewis. Bons tempos o da minha infância, quando a barriga doía de tanto rir das tiradas do ator.

Sean Penn, esse sim, o homem mais sexy do mundo, faturou a estatueta de melhor ator por Milk e de quebra pediu a legalização do casamento gay. Há quem se irrite com o engajamento de Penn em prol disso e daquilo, mas atenção puristas, arte pela arte é balela e Oscar Wilde (que Deus o tenha em bom lugar) está morto.

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Aaaah, o Carnaval? Teve trio elétrico, os mesmos artistas de sempre, as mesmas brigas de sempre, que pioram ano após ano com o confinamento da pipoca...continuo na contagem, faltam dois dias! Amém.

domingo, 22 de fevereiro de 2009

Contagem regressiva: faltam três dias!

Meu amado Nelsinho não quer que eu conte, mas não resisto: faltam três dias para acabar o reinado de Gerônimo. Com todo respeito que devo ao criador de É D'Oxum, não vejo a hora desse povo ir para casa e minha vida voltar à sua rotina normal de trabalho honesto em madrugadas calmas.

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Resumo da noite de ontem. Ou seria madrugada de hoje?

Sábado de Carnaval é dia da saída do Ilê. O mais belo dos belos eu respeito. Mas quem faltou ao respeito com o coral negro foram o governador Wagner e o publicitário Nizan Guanaes. O primeiro levou escolta policial e o segundo, três seguranças. Isso é que é consideração ao trabalho social que o bloco desenvolve no bairro do Curuzu. Lamentável que nossos "homens fortes" tenham medo do povo. Na certa é consciência pesada...

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E neste domingo, the oscar goes to...Um consolo e tanto em meio a insanidade geral do Carnaval.

sábado, 21 de fevereiro de 2009

Tambores da minha liberdade

A segunda madrugada momesca avança e os sinais da minha impaciência para a festa terminar são nítidos. As piadas tornam-se mais ácidas, a ironia, o último recurso de sobrevivência da inteligência agredida por letras como "rala a checa no chão?!"

Os desfiles atrasam, a vistoria dos trios acontece na última hora e a ordem de entrada nas passarelas carnavalescas é alterada. Olho para o relógio, isso não vai dar certo, murmuro desconfiada. E não dá mesmo, bloco entrando na avenida com sete horas de atraso?! Significa que minha madrugada vai virar manhã.

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A noção de tempo de alguém que troca os dias pela noite muda radicalmente. Você toma o café da manhã na hora do lanche da meia-noite. Vai dormir na hora de acordar. Acorda e cai direto, de boca, garfo e faca, no prato do almoço e lá para o meio da tarde, que sono terrível. Meia horinha de cochilo para enfrentar outra madrugada.

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A segunda noite do Carnaval teve Timbalada, Olodum e Cortejo Afro. Belo desfile desse último, mas saiu às 23h30, sem público, só com as imagens da TV estatal. Uma pena, os tambores do cortejo anunciavam liberdade, a minha. Outra olhada para o relógio, faltam pouco menos de cinco horas para encerrar minha transmissão.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Madrugada do Momo Gerônimo

Da série, o passo-a-passo de uma cobertura

O Carnaval de Salvador já começou. O rei Momo é o cantor e compositor Gerônimo. Um cara resistente, que tem a capacidade de se reinventar e sobreviver ao boom do axé fazendo o estilo de música em que acredita. Na massa homogênea do Carnaval, com cantoras chapinhadas e malhadas, Gerônimo, barrigudo, um senhor de meia-idade, mantém o charme da origem do samba-reggae. O que me atrai no samba-reggae, na salsa, nos ritmos de raiz que ele preserva? Justamente isso, o fato de serem de raiz, de manterem a origem das coisas em seu devido lugar de respeito.

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O A TARDE On Line está com hotsite para cobrir a folia comandada pelo rei Gerônimo. Eis o motivo pelo qual minhas madrugadas serão longas até a Quarta-feira de Cinzas.

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Plantões madrugada à dentro são incovenientes no que diz respeito a dieta e ao sono, mas os riscos de infarto são atenuados pelo santo remédio que é rir das piadas de colegas tão mal-alimentados e mal-dormidos quanto você. A solidariedade entre os notívagos me fascina e ajuda a manter o ânimo, mesmo na cobertura do Carnaval.

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"Chove lá fora e aqui faz tanto frio". Está realmente chovendo baldes (para refrescar a falta de juízo dos foliões) e a redação está geladíssima.

P.S.: anotação mental para a segunda-noite: pedir o controle remoto do ar condicionado e deixá-lo ao alcance dos dedinhos que voam pelo teclado.

Primeiro dia - Já é Carnaval cidade, socorro!

Da série, o passo-a-passo de uma cobertura

Se engane não leitor. Embora pretenda dividir com vocês o meu suplício em trabalhar seis madrugadas seguidas, Carnaval à dentro - o problema não são as madrugadas, que me descobri notívaga, mas a folia de Momo -, os detalhes me escapam, porque como todo ser humano, tendo à autoindulgência.

Na medida do possível tentarei narrar os fatos mais marcantes do meu carnaval pessoal em detalhes. Não adianta narrar o que todo mundo vai ver na TV e acessar na internet. Então, como a moda é buscar o diferencial na árdua luta pela sobrevivência, meu diferencial é contar sobre a rotina miudinha que vivo.

Comecei a quinta-feira carnavalesca filosofando sobre a mentira e suas consequências. Tá lá no Conversa de Menina. Alane agradece a audiência!

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

O abominável mundo dos camarotes

Há mais de um mês é impossível transitar pelo centro de Salvador, no trecho que se estende entre a praça do poeta (Castro Alves) até a avenida Ademar de Barros, em Ondina. São os tais dos 25 quilômetros da "Cidade Efêmera do Carnaval". Por ser efêmera a gente até se resigna a suportar dias tormentosos entre meados de janeiro e o começo de março, quando as famigeradas estruturas carnavalescas empurram pedestres para o meio da pista. No entanto, nada me impede de bradar para a minha meia dúzia de fieis leitores, o quanto me irrita viver em Salvador nessa época do ano. Com todo respeito à tradição milenar do Carnaval, - aliás iniciei até uma série sobre a história da festa lá no Conversa de Menina -, quem reclama aqui neste espaço agora é a cidadã, moradora de Salvador e não a jornalista que tem de cobrir a festa por força da profissão. Gente, eu odeio Carnaval com cada célula do meu ser. Acho a festa horrível, as músicas de gosto duvidoso, detesto multidões suadas se espremendo e trocando bactérias. Mas durante a festa é simples conviver com ela. Moro quilômetros longe dos circuitos da folia. Trabalho em uma zona da cidade que mal vê ecos carnavalescos em foliões tardios que dormem nos ônibus. Nem uma notinha de axé music, graças ao deus protetor da boa música. Mas, centro da cidade é centro da cidade e por mais que a gente tente, não há como fugir de transitar por essas áreas nos dias que antecedem essa versão fake das antigas lupercálias e dionisíacas. Pois bem, durante a montagem da cidade efêmera do carnaval, atos prosaicos do cotidiano como ir ao banco, ir ao médico, fazer o cooper matinal que ajuda a manter o AVC e o infarto distantes, tornam-se impossíveis. Engarrafamentos monstruosos, barulho ensurdecedor com o baticum da montagem das tais estruturas, mudança nos roteiros dos ônibus porque tal rua foi fechada para o bloco passar...O pior é que todo ano a imprensa escrita, virtual, televisiva e radiofônica faz matérias mostrando os transtornos do Carnaval para a vida do cidadão comum, mas o efeito é semelhante ao do desabafo neste blog. Apenas serve como catarse coletiva de um mal que, por falta de planejamento adequado, é dos tais sem solução.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

"Pense no absurdo...

...na Bahia tem precedente". A frase do ex-governador Otávio Mangabeira, tantas vezes usada e abusada, serve mais uma vez de introdução para a minha série pessoal de desgostos com a humanidade. Só leio jornal ultimamente por obrigação. Pra um jornalista admitir isso é doloroso, acreditem.

Notícias do dia que estragam o café da manhã:

1 - Polícia suiça questiona gravidez de brasileira agredida e não cita em relatório de ocorrência que a motivação da agreção foi racismo. Que lindo, agora, vamos desviar o foco da mídia para o fato da moça espancada e marcada com estiletes estar ou não grávida. Me respondam aí, o fato dela ter ou não perdido os bebês, o fato de existirem ou não bebês, muda o fato de que uma mulher foi espancada por três caras, marcada com golpes de estilete e humilhada? Daqui a pouco, anotem aí, vão dizer que a tal moça estava na Suiça se prostituindo, como se isso mudasse o fato de que uma mulher foi agredida, de que um ser humano foi agredido. Já vi que em matéria de atendimento às vítimas de violência, quando elas são do sexo feminino, principalmente, a Suiça e o Brasil se equivalem e acreditam que a culpa é da vítima.

2 - Pelos lados de cá a notícia é mais dramática. João Henrique Carneiro, alcaide de Salvador, declarou em rede nacional que vai usar o dinheiro da merenda escolar e dos remédios nos postos de saúde para pagar o Carnaval. Outra beleza de notícia. A uma altura dessas, já larguei minha caneca de café com leite e desisti do pãozinho quente com manteiga. Será que o prefeito não sabe que para muitas crianças paupérrimas dessa terra, ir à escola não representa apenas alimentar-se de conhecimento, mas ter a chance de matar a fome física, de pão? A hora da merenda é a única refeição decente que essas crianças vão ter o dia inteiro, mas é preciso patrocinar o Carnaval, garantir que o turista, talvez os suiços, vejam muitas brasileiras semi-nuas dançando na avenida e por isso saiam daqui acreditando que a primeira "vagabunda brazuca" que eles encontrarem em Zurique merece ser retalhada com estiletes.