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quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Algumas considerações finais sobre o Carnaval

1 - Que bom que acabou!

2 - Descobri que é possível acordar de ressaca sem ter bebido uma gota de álcool ou consumido qualquer outro tipo de aditivo, exceto chocolates. Ressaca de sono deve ser tão ruim quanto ressaca de cachaça. Atenção às sensações: cabeça pesada, tontura, moleza no corpo, gosto ruim na boca (até água fica esquisita), entorpecimento...

3 - A cidade ontem deserta e deprimida, hoje acordou barulhenta pra caramba. Tem uma fábrica embaixo da minha janela e dois canteiros de obras nas cercanias do prédio onde eu morro. Parem as máquinas, pelo amor de deus!

4 - Acabo de me lembrar que em meio aos plantões momescos, esqueci completamente de fazer o dever de casa!! Preciso definir o meu objeto de estudo e escrever uma apresentação...se é que vocês me entendem. Se não entendem, sem problemas, hoje o dia tá confuso como em toda Quarta-feira de Cinzas que se preza.

5 - Daqui a pouco tem o bom e velho plantão de corujinha da meia-noite. Nada como o conforto da rotina para ajudar a aclarar as idéias.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

A vida na cidade off Carnaval


Costumo admirar a cidade em dias de feriado. Mais até, como já declarei de outras vezes, sinto-me dona das ruas. Desfruto o poder de andar pelas calçadas sem esbarrar em ninguém, deserto de concreto, entregue à contemplação. Mas a solidão da cidade off carnaval não é contemplativa, é mais triste, talvez porque seu oposto, a cidade da folia, alguns quilômetros e viadutos à frente, seja alegre demais. A felicidade fake do Carnaval, com seu colorido berrante e os trios ensurdecedores, como se gritassem EI, É PROIBIDO FICAR TRISTE PELOS PRÓXIMOS SEIS DIAS, embotam e contaminam as ruas desertas da cidade off carnaval.

Desço uma ladeira, em direção ao plantão, ninguém nas ruas. O vigilante de uma obra me dá boa-noite e deseja bom trabalho, sinto um suspiro em sua voz. Resignado em ganhar o pão, não participa do espetáculo lá na outra cidade, as contas se pagam nessa. Ao atravessar o estacionamento de um grande supermercado, que me serve de atalho para alcançar o ponto de ônibus, mais rostos anônimos e dolorosamente tristes empurram carrinhos de compras. São os excluídos da folia. Ou paga-se o abadar, ou compra-se o almoço da semana, lembro de Cecília Meirelles e do eterno dilema que nos cerca, ou isto ou aquilo, eterno estado de escolha da condição humana. Poderiam sair fantasiados de pipoca, os tristes rostos resignados que vejo, mas o risco da cotovelada na costela, do soco no olho, quiçá de uma facada, não vale a pena.

Na rua onde trabalho, luzes só as pálidas penduradas nos postes. São um pouco mais brilhantes no prédio do jornal. A avenida de grande movimento em dias comuns, entrega-se à modorra de um feriado em que somos todos obrigados a gostar de foliar. Um carro para ao meu lado, o motorista, sotaque de fora da Bahia, pede orientações sobre como chegar na Barra. Indico as vias tortuosas que ele vai ter de percorrer, verdadeiro labirinto de vielas pasmacentas. O coitado queria viver cada segundo de festa, mas está hospedado na cidade off carnaval. Com suas ruas desertas, convertidas quase todas em mesma paisagem, essa cidade de tristeza não abre suas fronteiras com facilidade para aqueles que desejam escapar para a outra, aquela que brilha com as cores de Momo.

Respiro o ar deserto da cidade off carnaval e entro na redação, para viver o simulacro de festa que o plantão me reserva. Tédio profundo, mas agora só falta um dia.

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O impacto da cobertura do quinto dia de folia foi reduzido a cena de uma mulher, completamente nua, dançando um pagode de letra grotesca sobre um trio elétrico. Aquilo me falou tão fundo na condição de fêmea, que apelei para bell hooks e escrevi esse desabafo aqui, no Conversa de Menina.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Madrugada do Momo Gerônimo

Da série, o passo-a-passo de uma cobertura

O Carnaval de Salvador já começou. O rei Momo é o cantor e compositor Gerônimo. Um cara resistente, que tem a capacidade de se reinventar e sobreviver ao boom do axé fazendo o estilo de música em que acredita. Na massa homogênea do Carnaval, com cantoras chapinhadas e malhadas, Gerônimo, barrigudo, um senhor de meia-idade, mantém o charme da origem do samba-reggae. O que me atrai no samba-reggae, na salsa, nos ritmos de raiz que ele preserva? Justamente isso, o fato de serem de raiz, de manterem a origem das coisas em seu devido lugar de respeito.

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O A TARDE On Line está com hotsite para cobrir a folia comandada pelo rei Gerônimo. Eis o motivo pelo qual minhas madrugadas serão longas até a Quarta-feira de Cinzas.

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Plantões madrugada à dentro são incovenientes no que diz respeito a dieta e ao sono, mas os riscos de infarto são atenuados pelo santo remédio que é rir das piadas de colegas tão mal-alimentados e mal-dormidos quanto você. A solidariedade entre os notívagos me fascina e ajuda a manter o ânimo, mesmo na cobertura do Carnaval.

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"Chove lá fora e aqui faz tanto frio". Está realmente chovendo baldes (para refrescar a falta de juízo dos foliões) e a redação está geladíssima.

P.S.: anotação mental para a segunda-noite: pedir o controle remoto do ar condicionado e deixá-lo ao alcance dos dedinhos que voam pelo teclado.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

O abominável mundo dos camarotes

Há mais de um mês é impossível transitar pelo centro de Salvador, no trecho que se estende entre a praça do poeta (Castro Alves) até a avenida Ademar de Barros, em Ondina. São os tais dos 25 quilômetros da "Cidade Efêmera do Carnaval". Por ser efêmera a gente até se resigna a suportar dias tormentosos entre meados de janeiro e o começo de março, quando as famigeradas estruturas carnavalescas empurram pedestres para o meio da pista. No entanto, nada me impede de bradar para a minha meia dúzia de fieis leitores, o quanto me irrita viver em Salvador nessa época do ano. Com todo respeito à tradição milenar do Carnaval, - aliás iniciei até uma série sobre a história da festa lá no Conversa de Menina -, quem reclama aqui neste espaço agora é a cidadã, moradora de Salvador e não a jornalista que tem de cobrir a festa por força da profissão. Gente, eu odeio Carnaval com cada célula do meu ser. Acho a festa horrível, as músicas de gosto duvidoso, detesto multidões suadas se espremendo e trocando bactérias. Mas durante a festa é simples conviver com ela. Moro quilômetros longe dos circuitos da folia. Trabalho em uma zona da cidade que mal vê ecos carnavalescos em foliões tardios que dormem nos ônibus. Nem uma notinha de axé music, graças ao deus protetor da boa música. Mas, centro da cidade é centro da cidade e por mais que a gente tente, não há como fugir de transitar por essas áreas nos dias que antecedem essa versão fake das antigas lupercálias e dionisíacas. Pois bem, durante a montagem da cidade efêmera do carnaval, atos prosaicos do cotidiano como ir ao banco, ir ao médico, fazer o cooper matinal que ajuda a manter o AVC e o infarto distantes, tornam-se impossíveis. Engarrafamentos monstruosos, barulho ensurdecedor com o baticum da montagem das tais estruturas, mudança nos roteiros dos ônibus porque tal rua foi fechada para o bloco passar...O pior é que todo ano a imprensa escrita, virtual, televisiva e radiofônica faz matérias mostrando os transtornos do Carnaval para a vida do cidadão comum, mas o efeito é semelhante ao do desabafo neste blog. Apenas serve como catarse coletiva de um mal que, por falta de planejamento adequado, é dos tais sem solução.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

"Pense no absurdo...

...na Bahia tem precedente". A frase do ex-governador Otávio Mangabeira, tantas vezes usada e abusada, serve mais uma vez de introdução para a minha série pessoal de desgostos com a humanidade. Só leio jornal ultimamente por obrigação. Pra um jornalista admitir isso é doloroso, acreditem.

Notícias do dia que estragam o café da manhã:

1 - Polícia suiça questiona gravidez de brasileira agredida e não cita em relatório de ocorrência que a motivação da agreção foi racismo. Que lindo, agora, vamos desviar o foco da mídia para o fato da moça espancada e marcada com estiletes estar ou não grávida. Me respondam aí, o fato dela ter ou não perdido os bebês, o fato de existirem ou não bebês, muda o fato de que uma mulher foi espancada por três caras, marcada com golpes de estilete e humilhada? Daqui a pouco, anotem aí, vão dizer que a tal moça estava na Suiça se prostituindo, como se isso mudasse o fato de que uma mulher foi agredida, de que um ser humano foi agredido. Já vi que em matéria de atendimento às vítimas de violência, quando elas são do sexo feminino, principalmente, a Suiça e o Brasil se equivalem e acreditam que a culpa é da vítima.

2 - Pelos lados de cá a notícia é mais dramática. João Henrique Carneiro, alcaide de Salvador, declarou em rede nacional que vai usar o dinheiro da merenda escolar e dos remédios nos postos de saúde para pagar o Carnaval. Outra beleza de notícia. A uma altura dessas, já larguei minha caneca de café com leite e desisti do pãozinho quente com manteiga. Será que o prefeito não sabe que para muitas crianças paupérrimas dessa terra, ir à escola não representa apenas alimentar-se de conhecimento, mas ter a chance de matar a fome física, de pão? A hora da merenda é a única refeição decente que essas crianças vão ter o dia inteiro, mas é preciso patrocinar o Carnaval, garantir que o turista, talvez os suiços, vejam muitas brasileiras semi-nuas dançando na avenida e por isso saiam daqui acreditando que a primeira "vagabunda brazuca" que eles encontrarem em Zurique merece ser retalhada com estiletes.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Sobre cientistas, trabalhos escolares e calor

Revolta total contra os pseudo-cientistas que perdem tempo e disperdiçam dinheiro necessário a cura da Aids, do câncer e da fome no mundo, reforçando estereótipos contra as mulheres na nossa sociedade misógena. É isso aí, Conversa de Menina fez seu primeiro post declaradamente feminista. Leiam aqui.

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Um disparo com bala de festim no professor. Tanto tempo pesquisando, lendo e relendo textos, links e tudo o que caiu diante dos olhos, para escrever um artigo acadêmico, entregar o dito trabalho no prazo e descobrir que o prazo foi dilatado. Sorte dos meus colegas, que depois de um mês, precisavam de mais tempo. Mas eu não troco o meu alívio por ter arrancado logo este band-aid. Ainda tenho 25 dias de férias. Haroun e outras delícias literárias me aguardam.

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Ainda tem gente que diz que o efeito estufa não existe. Esse calor em Salvador vai me matar. O sol frita os miolos. A atmosfera abafada faz adoecer. Socorro, meu reino por temperaturas mais amenas.

domingo, 14 de dezembro de 2008

A Salvador que a Emtursa não mostra

Domingo é dia de leitura leve. Cultura, esportes, comportamento dividem espaço nas páginas do jornal. Mas os periódicos de hoje também trazem a realidade nua e crua de Salvador, histórias de vida, dramas e pequenas tragédias que não sorriem com dentes brancos nos anúncios Welcome to Bahia da empresa oficial de turismo. Um policial matou a esposa, também PM, e depois se suicidou. A manchete em letras negras anuncia o drama dos usuários de crack no Centro Histórico da capital. Aqui, o texto publicado no portal A TARDE On Line. E aqui, uma galeria de fotos que já diz tudo.

domingo, 7 de dezembro de 2008

Conversa estranha na calada da noite

Da série, minhas pequenas aventuras do viver

Aconteceu há quase 12 anos. Era aluna da UFBA e no meu tempo, as aulas espalhavam-se ao longo do dia: duas de manhã, uma terceira no meio da tarde, mais duas à noite. Não sei que malabarismos éramos capazes de fazer para estudar e trabalhar, mas alguns estudantes conseguiam. Devo ter perdido os poderes mágicos que me permitiam controlar o tempo, porque nunca mais na vida consegui ser tão multitarefas quanto na época da faculdade. A aula naquela noite estava prevista para terminar às 21h, mas o professor era daqueles apaixonados pela disciplina e os alunos, ávidos por aprender. A aula terminou às 22h30. Nas imediações do campus do Canela não havia ônibus que me levasse para casa. O jeito era andar até o Forte de São Pedro e esperar no ponto próximo à descida da ladeira da Contorno. Para quem não é de Salvador, meus parcos conhecimentos geográficos não permitem descrição mais detalhada. Basta que saibam que o lugar era deserto, muito deserto. Era um tempo na minha vida em que faltava dinheiro para táxi. Até porque, tinha de sobrar para fraldas. Estava no sétimo mês de gravidez, no penúltimo semestre do curso de jornalismo. Meu salário de estagiária em uma empresa de assessoria de comunicação não permitia luxo. Encarei o ponto de ônibus deserto com desconfiança. As muralhas negras do Forte de São Pedro pareciam saídas de um filme do expressionismo alemão. Pensei que daria de cara com Nosferatus, mas o que aconteceu foi um pouco mais surreal e perfeitamente possível, dentro da realidade de uma cidade grande, depois das 22h. Um homem se aproximou de mim, parou na minha frente e disse: "eu ía assaltar a senhora, mas eu não assalto mulher grávida, porque ela pode levar um susto e perder a criança". Eu não sabia se batia no ladrão e gritava "seu... você já me deu um susto", ou se corria. Não bati no homem e também não corri, porque a barriga não deixaria mesmo que eu tentasse. Respirei fundo e respondi: "olha moço, eu acabo de sair da aula e só tenho aqui um passe estudantil pra ir pra casa. Aqui tem minha mochila, se o senhor quiser olhar, pode olhar, mas só tem dois livros que peguei na biblioteca da faculdade, um caderno e um estojo de lápis. Repare que não uso bolsa, nem tenho carteira. Se o senhor levar meu passe eu vou ter de ir para casa à pé, mas com essa barrigona vai ser meio complicado porque eu moro longe, no subúrbio". Essa parte do subúrbio era mentira, melhor dizendo, meia-verdade. Nasci e passei metade da infância na periferia de Salvador, meu pai ainda vivia no subúrbio, mas eu já morava em um bairro central naquela época. Achei que precisava fazer um drama e convencer o ladrão de que eu não era bom negócio. Deu certo, o assaltante ficou com pena. Disse que ficaria ali me fazendo companhia até o meu ônibus passar. "É para evitar que algum malandro venha fazer mal pra senhora, eu tenho um respeito muito grande por mulher grávida". Eu não sabia se ria da situação exdrúxula em que havia me metido ou se chorava, porque meu ônibus ía passar e o ladrão veria que eu menti. Meu medo era ficar marcada e ele desconsiderar a barriga e me assaltar numa próxima saída da aula. Continuamos batendo papo. O ladrão falava e eu sacudia a cabeça, concordando com tudo o que ele dizia. Não tirava o olho da esquina de onde viria o ônibus e não sabia se rezava para o coletivo chegar logo ou não chegar. Uma coisa eu pedia a Deus, "não mande nenhum ônibus de bairros suburbanos. O senhor tem mãe!". Devia ser mais um daqueles dias em que Deus está de ouvidos desentupidos ou então no silêncio da noite, só tinha mesmo aquela quase-mãe de 22 anos ali parada no meio da rua, tentando lembrar orações da infância ("santo anjo do senhor...") e o pai de todos ficou comovido. Quase meia-hora depois, enquanto eu ouvia o ladrão monologar sobre a dura vida de assaltante, um casal se aproximou para também esperar um coletivo. Logo em seguida, apareceu mais um homem. O ladrão então bateu no meu ombro e disse: "agora a senhora tem companhia demais, já vou viu. Avise para o pai desse moleque que ele tem obrigação de vir buscar a mulher na escola". Achei desnecessário explicar ao ladrão que tratava-se de uma produção independente.

sábado, 6 de dezembro de 2008

Sangue doce

Da série, crônicas do cotidiano

Enquanto a Daslu não chega a Salvador, as muriçocas comem minhas pernas. Como diria minha avó, desde criança tenho sangue doce para atrair mosquitos e pernilongos. Meu filho de 11 anos anda se divertindo contando mordidas, foram 45, só na perna direita, na última contagem. Spray mata-mosquito tem CFC e faz mal para a camada de ozônio, por isso, aderi à campanha alimente as muriçocas que fugiram do Horto Bela Vista, futuro endereço do luxo soteropolitano. O pior, em se tratando de muriçocas, nem são as marcas nas pernas e braços, centenas de pontinhos rubros que me deixam em eterno estado de sarampo sem febre, mas a cantoria no ouvido. Meu filho, futuro biólogo, explicou que muriçoca não canta, que o som que irrita meu sono vem das asas. Muriçocas não são fadas, mas suas asas cantam. São vampiras, porque bebem sangue, pequenas predadoras expulsas do paraíso das últimas matas do Cabula. Tudo para que Salvador tenha uma loja para deleite das peruas. Conclusão: literalmente dou meu sangue para que minha provinciana e amada capital hospede em seu ventre lusobantonagô uma filial da loja Daslu, que não pretendo freqüentar nem por curiosidade.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Poluição sonora

Da série, no meu caminho para casa tinha um CD evangélico

Nada contra religiões, cada um segue aquela que quiser e bem entender, a que tiver mais relação com a sua forma de ver o mundo, a que for mais conveniente e tal. Religião, diz o ditado, "é igual a futebol, gosto e mulher", cada um tem o seu, - a sua no caso da mulher (se for uma mulher e não for lésbica, "o seu", já que ela deve ter um homem) - e não se discute. Até aí tudo bem, longe de mim querer ofender a religiosidade alheia, já disse em outras ocasiões, também queimo os meus incensos. Mas preciso mesmo ouvir um CD em que um suposto pastor evangélico (imaginem o efeito sonoro das moedas caindo no cofrinho), conta com riqueza de detalhes sórdidos, quanto mais sórdidos, mais fiéis - como ele se converteu de um ex-drogado, prostituído e quase bandido, em pilar da moral, dos bons costumes e da fé? Não, eu não preciso. Religião cada um tem a sua, portanto, que as experiências sinestésicas e anestésicas da prática de qualquer que seja ela, limite-se ao seu dono e praticante. Salvadores fones de ouvidos, bendita voz de Mike Stipes, abençoado CD do R.E.M tocando no mp3, divina capacidade de me desconectar do mundo. Não tenho a menor idéia de como o ex-junkie convertido, se converteu. Aos primeiros acordes da sua voz hipnótica, eu liguei o escudo anti-demência e pluguei os fones. E Deus estava de bom-humor e do meu lado, porque poucos minutos depois, eis que apontou o ônibus ali na esquina.

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Cadê o avião?

Da série, micos paternos (e maternos)

Quinta-feira, 9h20 da manhã. Aeroporto Internacional de Salvador. Uma fila de crianças eufóricas e uma mixórdia de pais (e mães) tensos aguardam a hora do embarque. Bilhetes na mão, mochilas nas costas, as crianças entram no terminal. Um adeuzinho, uma corrida de última hora para um derradeiro abraço, beijos lançados da ponta dos dedos. Do lado de cá, mães enxugando lágrimas discretamente, nem todas, algumas choravam sem pudor; pais esticando-se na ponta dos pés, os baixinhos, para um último clique com celulares ou câmeras digitais que cabem no bolso da calça. "Vamos para o mirante ver o avião sair", sugere uma mãe particularmente entusiasmada. Vão todos, não em fila, com o passar dos anos os adultos perdem completamente o senso de ordenamento ensinado pelas professoras. "Qual é a plataforma de embarque deles?", pergunta um. "É a número 4", responde uma mãe mais bem informada, uma que teve serenidade para ler atentamente o bilhete de viagem que o filho chacoalhava na fila de embarque. Olhos em direção à plataforma 4. "Que avião é o deles?", alguém no meio da multidão de pais e mães questiona. "Eles vão viajar pela Gol". Então beleza, na plataforma 4 tem um avião da Varig. Ninguém conhecido ou importante o suficiente para fazer aqueles quase 80 pais e mães se atrasarem no trabalho vai viajar em um avião da varig, então, o negócio é esperar o avião da Gol, aquele do rabinho laranja. Bate-papo, suspiros, meu filho é isso, minha filha é aquilo, os pais (e mães) se entretém no fascinante jogo das comparações dos talentos infantis. O avião da Varig inicia o processo de taxeamento, se apruma, apota o bico para o céu, começa a correr, atira-se no ar (que coisa incrível isso de avião, um troço pesado pra caramba, levantar vôo com tanta graciosidade). Chega uma aeronave da Gol e encosta na plataforma 4. "Aquele deve ser o deles", surge uma voz de esperança na multidão e um olhar nervoso para o relógio. "Esse avião não ia sair às 9h20, já são 10h e agora que ele encostou na plataforma!". Espanto geral, indignação pelo atraso do vôo, especulação sobre o estado de nervos das crianças no salão de embarque, um pai mais decidido resolve ir até o guichê da companhia se informar. Volta cinco minutos depois, os outros 79 pais (e mães) cercam o embaixador para assuntos de viagens estudantis e fazem a clássica pergunta, em bom baianês: "e aí velho, cadê o avião?". O pai, rindo às gargalhadas, sussurra alguma coisa no ouvido da esposa, que também cai no riso. Depois, anuncia teatralmente: "Sabem aquele avião da varig que estava na plataforma 4 quando chegamos aqui? pois é pessoal, aquele era o avião que levou os nossos filhos. No guichê me informaram que a Gol comprou a Varig e que ainda não trocaram as bandeiras das aeronaves, aquele era o vôo dos meninos". Frustração, palavrões (vamos manter o bom nível do blog), gargalhadas, risos nervosos, alguém diz que é o mico do século, merece registro, outros reclamam da companhia aérea, que não avisou da troca, os mais sensatos (ou mais acomodados) apenas suspiram e ficam vasculhando na memória, tentando colar os pedaços da cena quase indiferente do avião da varig ganhando os ares.

domingo, 2 de novembro de 2008

No buzú I - Aperta que dá

Da série, universo ao meu redor

"Não abra mais a porta motô, aqui não cabe mais ninguém". Lata de sardinha, lata de gente, Luis Anselmo/Pituba, sucursal do inferno em forma de ônibus. Uma cena que pensei ter ficado para trás, na adolescência, na época do famigerado Itinga/Pituba, meados dos anos 90, retorna para assombrar os tempos modernos: gente pendurada na porta, equilibrio precário, a qualquer hora um despenca, lá se vai o motorista responder processo e as assistentes sociais da empresa de transportes engabelar a família que perdeu o parente.

"Aperta que dá minha gente, vamo passando aí..." - o cobrador estimula. "Só se um viajar na cabeça do outro, não tá vendo que não cabe", responde a passageira indignada. "Quando subir a ladeira da cruz da redenção melhora pessoal, vamo colaborar", continua o cobrador.

Certas histórias são cíclicas em Salvador, essa do ônibus lotado é uma delas.

No buzú II - Uma ajuda pelo amor de Deus

Da série, universo ao meu redor

Alô, Deus, você está aí? Tem um homem de moletas aqui neste ônibus, com uma ferida horrenda na perna, com as mãos estendidas pedindo "uma caridade em Seu Nome". Você ouviu o homem? Deus, alô.... ligação ruim. Não se preocupe, cuide dos seus assuntos celestes, eu ouvi o homem.

No buzú III - Caminhos de Periperi

Da série, universo ao meu redor

Minha tia mora longe. O caminho até sua casa, até o reencontro com a infância, é longo. Avenida San Martin, tabuletas de lojas de ferragens; Calçada, o belo prédio da estação de trens; Feira do Rato, micro-cosmo de mercadorias lícitas e nem tão honestas; Lobato, me chama atenção a creche Heroinas do Lar, das pobres e aguerridas mães suburbanas. Itacanhara; uma nesga de mar azul; extensão interminável da recém asfaltada avenida suburbana...

Na casa de titia, ajudante de cozinha, como boa baiana, embora desbotada, provo que sei mexer um vatapá. "Não esqueça os pedidos na hora de servir o caruru dos meninos". Não esqueço. Peço muito, embora setembro tenha ficado para trás, ainda é tempo de celebrar os ibejis.

No buzú IV - A mousse

Da série, "universo ao meu redor"

Experimento a proeza de transportar uma mousse de chocolate, dentro de um ônibus, da Vila Laura até a rua Oito de Dezembro, na Graça. Doeram os braços, mas valeu a pena ver as carinhas de felicidade, os gemidos de prazer, a gula daquelas meninas.

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Hamburguer de baiano

Da série, querido diário

No meu caminho para casa, na hora do rush, a moeda solitária vira um acarajé sem camarão. Ansiedade pela noite de sexta-feira, provocada pelo barulho na rua, trânsito congestionado, alunos entrando e saindo do campus de uma faculdade, vendedor de cachorro-quente na esquina, cheiro enjoado de molho de tomate dormido. Uma música, Loreenna Mckennitt, uma pequena paixão que divido com um caro amigo. Ele ouvia Loreenna para lembrar de mim, eu a ouço para esquecer quem sou, para me transportar para as paisagens medievais da Irlanda, que eu nunca vi de perto, pelo menos não nesta vida. O acarajé está bom. Massa leve, crocante, faz tempo que não como um tão bem feito. A pimenta fere a língua, mas certas feridas são boas de carregar, outras custam bastante. Noite de nostalgia, de entrega aos pensamentos melancólicos que vez por outra se insinuam. Contas a pagar, fim de mês também é época de contas, a matemática nunca foi meu forte. Dinheiro existe para gastar. Atravesso o estacionamento vazio de um centro comercial, ainda tem espaço no estômago para uma coisinha gelada. Cerveja?! Não, milk-sheik de morango. Bem gelado, o sorvete, que só é colocado no final, não derretou por completo, ficou bem pastoso, o gelo alivia o ardido da pimenta. Um riso, que mistura surreal, acarajé (hamburguer de baiano) com milk-sheik, bebida de adolescente americano. Ficou um gosto de infância, reminiscência de outras misturas esquisitas: biscoito doce com maionese era a preferida para acompanhar a sessão da tarde. Atravesso a praça em frente ao shopping mais conhecido da cidade. Virou território livre para os ambulantes que reelegeram o prefeito marionete. Churrasquinho de gato, bolsas de gosto duvidoso, uma cantora evangélica tenta me vender a sua fé que eu não quero comprar. Do outro lado da praça, pagodão de letra impublicável. No ponto de ônibus, muitos rostos, uma mãe vestida num longo roxo segura um garoto de mochila nas costas. Mais ambulantes. Gente cansada, gente absorta nos próprios pensamentos, universos ao meu redor, com o perdão da licença poética a la Marisa Monte. Vem o ônibus, vazio, ou quase. Tem lugar para sentar. Experimento o transe de me saber no mundo e sentir-me fora dele. Enxergo a paisagem, mas na minha memória ela é igual, porém diferente. Observo as casas, as ruas, e Loreenna continua me levando para longe...

domingo, 26 de outubro de 2008

Não tem como não comentar


Geddel (centro), mexe os cordões que movimentam Wagner e João, a esq.

O atual prefeito de Salvador, João Henrique Carneiro, foi reeleito neste domingo com uma maioria impressionante de 58% dos votos válidos. O adversário era do PT, Walter Pinheiro. Muita gente que conheço disse que não votou em Pinheiro porque tanto o presidente Lula quanto o governador Jaques Wagner são petistas e, que democracia se faz com oposição. Só que, João Henrique passou a campanha dizendo que era aliado de Lula. Seu partido, o PMDB, é da base aliada da presidência da república. Seu padrinho, Geddel Vieira Lima, além de ser peemedebista, é ministro da integração do governo Lula!! Alguém por favor desvende os misteriosos caminhos da política para mim, porque essa tal de oposição está aonde mesmo, que eu não vi? Não votei em Pinheiro, por desconhecer seu passado político, por não ser petista ou de qualquer outro partido, e porque sim, concordo que democracia se faz com oposição honesta. Também não votei em João Henrique, porque vivo em Salvador desde que nasci e sei bem quais são os problemas da minha cidade, agravados nos últimos quatro anos por total e completa incapacidade administrativa do prefeito reeleito para fazer "oposição" aos seus próprios aliados. Como diz meu filho de 11 anos, já citado em outra ocasião: "isso é uma incoerência!". Votei nulo, porque protesto de verdade, na minha modesta opinião de cidadã, se faz através da recusa em escolher entre o ruim e o menos pior. Não me dêem candidatos porcaria, porque neles eu não voto. No dia em que os brasileiros aprenderem a recusar os candidatos meia-boca que se apresentam engomados no horário eleitoral da TV, com certeza a realidade desse país vai mudar. Não vesti verde, que é minha cor preferida desde criança, mas agora, infelizmente, é cor vilipendiada por João. Também não vesti vermelho, porque eu não sou uma filha tardia do comunismo, que aliás não deu certo. Vesti preto, a cor do luto no ocidente. Estou de luto por Salvador, pelos próximos quatro anos de conchavos e descaso e por ser governada por Geddel, o titereiro que comanda o marionete João Henrique.

sábado, 25 de outubro de 2008

...só imita o que não presta!

Toda vez que um desajustado aparece, outros seguem seus passos e aumentam um pouco mais a cota de misérias deste mundo. O desempregado Genivaldo, 20 anos, certamente se inspirou em Lindembergue, 22, e resolveu manter a companheira Driele, 18, grávida de oito meses, presa em casa, sob a mira de uma faca e alguns safanões. Dessa vez, o destino não meteu o dedinho trágico nas nossas feridas sociais. O jovem inconseqüente seguiu o rumo do seu ídolo paulista e está atrás das grades. Driele, felizmente, não compartilhou o azar de Eloá Cristina, 15. Já está segura na casa dos pais, onde deverá ficar até o filho nascer. Se tiver juizo, de lá não sai mais. A mídia, lógico, cobriu o fato, que, se não fosse o caso Eloá, passaria despercebido como mais uma briga de marido e mulher. Não importando que o marido e a mulher em questão tenham apenas 20 e 18 anos, respectivamente. Como diriam as vizinhas de uma tia minha: "essa juventude está perdida, só imita o que não presta!"

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

"Muito carro para pouca cidade"

Da série, crônicas do cotidiano

Seu Francisco está na praça há pouco mais de 30 anos, quase o tempo de vida da passageira que vai acomodada no banco de trás do táxi, comendo chocolates ferrero rocher. "Vai dar tempo de chegar em Ondina até 19h, seu Francisco?". O taxista consulta o relório, são 18h45, olha o tráfego engarrafado da avenida ACM, suspira e responde: "se a gente conseguir sair daqui desse bolo, vai dar tempo sim senhora". O problema, continua Seu Francisco, é que tem muito carro e pouca cidade em Salvador. A moça concorda, mastigando um último pedaço de castanha, triturada e escondida entre as camadas de creme de avelã do ferrero rocher. Seu Francisco, dois filhos, "formados viu minha senhora, um é analista de sistema e a menina é enfermeira", 56 anos de idade, "nascido e criado na cidade baixa", casado com a mesma mulher há 39 anos, continua explicando os problemas do trânsito da terceira capital do país. "A senhora tá vendo essa sinaleira (na saída do shopping iguatemi, imediações do edifício Capemi) - essa sinaleira é uma burrice minha senhora, eles botaram uma sinaleira na saída de um cruzamento, resultado, fecha lá, engarrafa aqui. Tinha era de botar uma passarela nessa avenida e eliminar a sinaleira". É o ponto de vista do taxista, trinta e tantos anos na praça, cansado da guerra diária do trânsito. A moça dos chocolates divaga, imagina a cidade coalhada de passarelas, todas estendidas feito bandeirolas ou roupas coloridas ao vento, pedestres minúsculos feito formigas indo e vindo... Embaixo, pista livre para a disputa pessoal dos motoristas. Ganha quem tiver mais pressa, quem for mais hábil, quem tiver menos medo da morte. "Chegamos senhora!". São 19h05, Seu Francisco errou a previsão por pouco. "O total da corrida é R$ 17,75". Nota de R$ 20,00. Seu Francisco cata moedas. "Arredonda logo para R$ 18,00, Seu Francisco". Dois reais de troco, a passagem do ônibus de amanhã cedo. "Deus lhe acompanhe minha filha". Amém, Seu Francisco. E ao senhor não desampare.

sábado, 4 de outubro de 2008

Vão construir 19 torres bem aqui!


Foto de: Ladyamnesia / Vista da minha janela para o futuro Horto Bela Vista

Outdoors, estrelas globais sorridentes e caminhões transportando material de construção anunciam o mega empreendimento Horto Bela Vista, numa área remanescente (?) de mata, na subida da Ladeira do Cabula. Lembrei do professor Cid Teixeira e das suas histórias sobre as laranjas das chácaras do Cabula. Na minha infância, ainda havia uma dessas chácaras. Quando passava por ela, tinha a sensação de que, se atravessasse o portão gradeado ou pulasse o muro, que nem era tão alto, entraria no reino das fadas. Não moro mais no Cabula, embora o bairro onde eu vivo atualmente, também tenha seu quinhão de especulação imobiliária. Em frente ao meu modesto prédio de três andares, uma torre de 17 pavimentos sobe impávida. A bem da verdade, não subiu ainda, mas a demolição da casa colossal, em terreno de cinco mil metros quadrados, que vai abrigar o novíssimo edifício, anuncia para a vizinhança que a Vila Laura já não é mais a mesma. Outras quatro ou cinco ruas do bairro também vão ganhar seus espigões. Mas da minha janela, não serão as caras sorridentes dos meus vizinhos classe-média-alta que verei todas as manhãs. Da minha janela eu vejo a ladeira do Cabula. Numa ironia do destino, vim morar no bairro que fica do outro lado do vale formado pela Rótula do Abacaxi, que como o nome já diz, não é qualquer um que descasca. De um lado do vale, a ladeira do Cabula e a reminescência de mata e das antigas chácaras de laranjas doces. Do lado de cá, o meu lado, a Vila Laura que já foi fazenda, virou bairro pontilhado de casas com jardins vistosos e edifícios pequenos com playgrounds frescos; e, agora, deve se transformar na nova coqueluche do "bem morar" da capital. A ironia é porque, nostálgica, suspiro aqui e outro ali, vejo a ladeira que me conduz a um período da infância que é bem gostoso de lembrar. O que me intriga não é o avanço das construções. O mundo é populoso e cada diz nasce mais gente. As pessoas querem morar, embora boa parte das que conheço não tenham cacife pra morar no Horto Bela Vista. O progresso é necessário (será mesmo?) e coisa e tal... Nada contra a tecnologia, olha eu aqui escrevendo minhas lembranças num blog, nada contra o conforto, bem que meu quarto podia ser maior e ter uma varanda com rede para as tardes de leitura. Mas o meu questionamento é bem simples: fala-se no horto, nos seus 19 edifícios arranha-céu, no shopping-center e nas torres empresariais que vão fechar o cerco moradia-trabalho-e-lazer, tudo no mesmo espaço. Mas não se fala em planejamento, infra-estrutura urbana, reordenamento do tráfego, melhoria das condições de vida da população paupérrima que vive no entorno. Enfim, não se escreve uma linha sobre como a Rótula vai se tornar menos Abacaxi e mais condizente com o mega-projeto ambicioso ladeira do Cabula acima! Como diria meu filho de 11 anos, "é uma incoerência". Sem falar que, José Saramago, que é cada dia mais mago pra mim, previu o advento dos complexos habitacionais-residenciais-diversãogarantida quando escreveu o primoroso A Caverna. O livro é ambientado numa dessas maravilhas da engenharia moderna e seus moradores-trabalhadores-visitantes vivem confinados no sonho do "tudo ao alcance da sua mão" e nem se dão conta de que, tal qual os habitantes da caverna de Platão, o que vêem à sua frente é um mero simulacro de realidade, sombras projetadas na parede. A vida real vai continuar para além dos muros do paradisíaco Horto Bela Vista, espremida e borbulhante na Rótula do Abacaxi.


Foto de: Ladyamnesia / A ladeira que não leva mais para as chácaras do Cabula