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quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Madrugada do Momo Gerônimo

Da série, o passo-a-passo de uma cobertura

O Carnaval de Salvador já começou. O rei Momo é o cantor e compositor Gerônimo. Um cara resistente, que tem a capacidade de se reinventar e sobreviver ao boom do axé fazendo o estilo de música em que acredita. Na massa homogênea do Carnaval, com cantoras chapinhadas e malhadas, Gerônimo, barrigudo, um senhor de meia-idade, mantém o charme da origem do samba-reggae. O que me atrai no samba-reggae, na salsa, nos ritmos de raiz que ele preserva? Justamente isso, o fato de serem de raiz, de manterem a origem das coisas em seu devido lugar de respeito.

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O A TARDE On Line está com hotsite para cobrir a folia comandada pelo rei Gerônimo. Eis o motivo pelo qual minhas madrugadas serão longas até a Quarta-feira de Cinzas.

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Plantões madrugada à dentro são incovenientes no que diz respeito a dieta e ao sono, mas os riscos de infarto são atenuados pelo santo remédio que é rir das piadas de colegas tão mal-alimentados e mal-dormidos quanto você. A solidariedade entre os notívagos me fascina e ajuda a manter o ânimo, mesmo na cobertura do Carnaval.

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"Chove lá fora e aqui faz tanto frio". Está realmente chovendo baldes (para refrescar a falta de juízo dos foliões) e a redação está geladíssima.

P.S.: anotação mental para a segunda-noite: pedir o controle remoto do ar condicionado e deixá-lo ao alcance dos dedinhos que voam pelo teclado.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

Fragmentos de um dia quase natalino

Notícia de Jornal

Começou a dança de ratos para o aumento da passagem de transporte coletivo em Salvador. O SETPS (sindicato dos donos das empresas de ônibus) pede o aumento, o prefeito finge que não dá. Faz discurso, um escarcéu, "o povo não merece pagar essa conta, vamos fazer um estudo para desonerar o transporte". O estudo é prometido há séculos e não sai do papel. Em 01 de janeiro, o cidadão que prepare o bolso. Ano novo, tarifa nova.

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Um plantão voyerizando Sarkozy e Bruni


Falta de notícia na véspera do natal dá nisso, um plantão de sete horas dentro de uma redação esperando flashes das férias de Sarkozy e Carla Bruni em Itacaré. Que a imprensa cubra a Cúpula Brasil-União Européia vá lá. Do encontro de tantos presidentes, ministros e secretários pode sair algo que preste. Eu duvido, mas...Só não entendo é porque cobrir as férias do presidente francês com sua esposa de parar o trânsito. Fotógrafos pensam em flagrar Bruni de topless? Jornalistas querem escrever sobre o que Sarkozy comeu no café da manhã? Se era para dizer que a Bahia recebeu a visita de um presidente europeu, uma nota bastava. O único beneficiário desse "esforço de cobertura" será o resort onde o casal presidencial francês descansa os ossos e a pele do sol tropical (mais ardido que o da Riviera Francesa, aposto). Terão de inventar um superlativo maior que exclusivíssimo para o tal hotel encravado no meio de uma reserva de mata atlântica, essa sim, artigo raríssimo.

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Para não perder o dia de todo

A leitura é Alice no País das Maravilhas. Conto de Natal também serve, Dickens é sempre Dickens.

Para ouvir, recomendo Loreena Mckennitt - live in Paris and Toronto. Ganhei de um amigo que adora gastar dinheiro comigo, quando eu, em período de franciscano voto de pobreza, não comprei presente de Natal pra ninguém.

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Uma grande descoberta!

Eu e Saramago já morremos. Perfeito descobrir que neste mundo, apesar da fênix ser ave rara, tem companhia. Há um ano, José Saramago morreu por nove horas. Eu tenho exatos seis natais de ressurreição.

sábado, 20 de dezembro de 2008

Leio, penso, critico

"O jornalista é o operário-padrão da era pós-industrial".

A VELOCIDADE COMO FETICHE

O texto de Sylvia Moretzsohn mexeu com os brios dos jornalistas no curso de pós e mostrou o quanto é importante refletir sobre cada palavra lida. Sem senso crítico, tudo o que um acadêmico escreve vira verdade suprema, justamente porque ele está imbuído do "poder" da sabedoria. "É letrado, é doutor. Logo, ele ou ela, sabe do que fala". E assim, a sociedade é dividida entre especialistas e...os outros.

Sem senso crítico, tudo o que um jornalista escreve vira verdade absoluta. Porque ele está imbuído do "poder" de traduzir para eles, os outros, os não-especialistas, o jargão indecifrável dos poderes constituídos.

Mas há que se considerar que, ao escrever, acadêmico ou jornalista levam para dentro do seu texto, além dos fatos e das descobertas de suas pesquisas, um pacote inteiro de vida, de referências bibliográficas, geográficas, sociológicas, familiares, que nos acompanha desde que nascemos nessa babel chamada mundo.

Somos todos fruto do meio onde nascemos, onde nossas idéias germinam e dão novos frutos, em eterna troca de referências, em retroalimentação, no livre exercício do pensar.

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Piloto automático

Tempos Modernos - Charlie Chaplin














Produção em série. O jornalismo tornou-se uma fábrica de idéias pré-moldadas. Mas me recuso a ligar o piloto automático.

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Conceito: Gatekeeper

Da série, Definições no dicionário da convergência

Porteiro do céu: São Pedro
Porteiro do Inferno: Cérberos
Porteiro do sonho: o escritor
Porteiro da vida, do cotidiano...: eu, jornalista

Gatekeeping: "...o editor do jornal providencia (apesar de poder nunca estar consciente deste fato) para que a comunidade ouça como fato somente aqueles acontecimentos que o jornalista, como o representante de sua cultura, acredita serem verdade"
David M. White

Tradução livre pelo senso comum: jornalista é um tipo de porteiro bem arrogante.

...e tudo isso porque hoje na redação foi lançada uma questão interessante de se refletir: "Nosso negócio é informação, informar é servir".

Conclusão zen-budista: há que se exercitar a humildade para bem servir!

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Lembrei de uma reportagem antiga

Lendo um conto da minha novíssima paixão, Neil Gaiman, lembrei de uma reportagem que escrevi uns seis ou sete anos atrás. Infelizmente, o material não está digitalizado ainda, escrevi para um jornal impresso, mas vou aproveitar uma tarde morna qualquer e testar meu scanner, quando aprender onde é que liga. A matéria falava sobre o uso de animais em experimentos científicos e das crueldades que a humanidade comete em nome do progresso e do conhecimento. Visitei um laboratório, vi dezenas de ratinhos criados para uso acadêmico. Um deles me comoveu profundamente. Era cego, vermelho, enrugado e totalmente sem pêlos. Uma modificação genética no bicho, para testar tratamento contra a calvície, fez o animalzinho nascer muito mirrado, quase esquelético, e, totalmente pelado. A cientista chefe, na ocasião, gastou todo o seu vernáculo para me convencer de que o ratinho não sentia dor ou frio. A matéria foi inspirada no coitado do rato-orelha, lembram dele? Implantaram uma orelha humana nas costas de um camundongo para testar drogas contra a rejeição em transplantes. A pequena aberração apareceu em cadeia nacional, rendeu capa de revista, manchete de jornal e muita postagem na web. A cena do rato andando com uma orelha nas costas também me veio à cabeça quando li Bolinhos de Bebê. O conto é duro, é cru. Estômagos sensíveis, essa não é leitura recomendada, mas é com certeza necessária.

Olha aqui o rato-orelha, para quem não lembrava:

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Converge ou não converge?

Definições para convergência:

No dicionário

Do verbo convergir: Tender ou dirigir-se (para o mesmo fim), concorrer, afluir (ao mesmo ponto).

No jornalismo


"Processo multidimensional que, facilitado pela generalização das tecnologias digitais em telecomunicações, afeta o âmbito tecnológico, empresarial, profissional e editorial dos meios de comunicação, proporcionando uma integração de ferramentas, espaços e métodos de trabalho e linguagens anteriormente desagregados, de forma que os jornalistas elaborem conteúdos que se distribuem através de múltiplas plataformas, mediante as linguagens próprias de cada uma".

Na redação

Chegar às 9h, trabalhar até às 18h e ser capaz de: coordenar uma editoria, editar uma home page, fazer pauta, orientar repórter, editar texto, escrever relatório, assistir reunião, fazer post para um dos blogs do portal, tratar fotos, rir das piadas mais exdrúxulas que chegam pelo messenger ou pelo spark...

No entendimento da minha avó

"Assobiar e chupar cana ao mesmo tempo, pulando corda"

Na vida de uma criatura de trinta e poucos anos:

A estrada reta acabou e surge à frente uma bifurcação de dois caminhos. Um leva à vida pessoal, o outro à realização profissional. A estrada é o ponto de convergência dos dois caminhos. E aí, converge ou não converge? Hummmm...pausa para rever a trajetória e, se preciso, recomeçar a caminhada.

terça-feira, 21 de outubro de 2008

Pergunta que não quer calar

Alguém pode me dizer, pelo amor de Deus, no que o fato do pai de Eloá Cristina ser um foragido da polícia altera o destino dessa criança de 15 anos, morta com uma bala na cabeça, implantada por um namorado passional, de 22 anos - provavelmente outra criança corrompida e adulterada pelo machismo arraigado da nossa sociedade? Alguém pode me explicar, oh Deus! dê-me o dom do entendimento -, qual o objetivo da polícia em desviar o foco da cobertura da mídia da morte dessa criança para os crimes cometidos pelo seu pai? Será que os jornalistas que estão cobrindo o caso não entenderam que ao jogar holofotes sobre a ficha suja do progenitor da menina morta, muda-se descaradamente o foco da cobertura dos mal explicados erros da operação desastrosa do resgate de Eloá? A polícia, como sempre, marca pontos sobre a imprensa. Oferece outro escândalo, prato cheio para manchetes. Enquanto isso, "abafa o caso", ninguém precisa refletir sobre a nossa mal-preparada força policial, sem sangue-frio, serenidade, psicologia, ou que nome tenha, para negociar com seqüestradores e maníacos em geral. Alguém fez a conta sobre quantos sequestrados em situação semelhante à vivida por Eloá sobreviveram e quantos morreram porque a polícia fez tudo o que era possível, menos ter impedido que o seqüestrador surtasse e metesse um projétil na cabeça desse refém? Eloá Cristina, 15 anos, longos cabelos negros batendo nas costas, que começou a namorar aos 12, quando deveria estar brincando com a Barbie, certamente porque enquanto seu pai fugia da justiça e a mãe ganhava o sustento da casa, não sobrava ninguém para educá-la, está morta, enterrada, brevemente esquecida. Peguem a calculadora e somem quantas eloás existem neste país, namorando aos 12, parindo aos 13 e morrendo nas mãos de seus maridos-namorados-algozes antes dos 20. É preciso elevar a combalida audiência, portanto, desculpe Eloá, você é notícia de ontem, e o seu pai agora é quem vai ajudar a vender jornal.

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Comida de cobertura

*Dieta saudável para jornalistas em dia de cobertura de eleições:

Também serve para Carnaval ou qualquer outro evento de proporções monumentais.

Café da manhã:
- O bom e velho café com leite, pão, manteiga, um queijinho. Se você é do tipo jornalista saudável, tome um iogurte ou suco de frutas antes.

Almoço:
- Nesse horário já começa a complicar um pouco. Sanduiches, do fast food mais próximo à redação, acompanhados de batata-frita e um copo de meio litro de guaraná, que ficam eternamente derretendo e amolecendo sobre a mesa, enquanto você não tira os olhos do monitor e nem os dedos do teclado.

Lanche:
- É muito luxo! Geralmente, o fast food do almoço precisa durar por horas à fio no estômago. Mas, se der tempo, corra até a barraquinha da esquina e compre um pacote e Fandangos, uma lata de fanta, um chocolate e chicletes. Este último item é importante, porque mascar chicletes ajuda a diminuir a ansiedade pela hora que não passa, o plantão que não acaba, a apuração de votos que se arrasta gota a gota.

De madrugada:
- Em casos extremos, existem aqueles dias que você perde totalmente a noção da hora. Sabe que entrou na redação por volta de umas 8h da manhã e fica meio perdido sem saber se as duas horas que você vê no visor do relógio se referem a tarde ou ao dia seguinte! Nessas ocasiões, recomenda-se fazer um estoque extra de chocolates, café, mais fandangos, chicletes e menthos power, aquele bem ardido. Ajuda a passar o sono.

Inconvenientes da dieta:
- Um mês seguindo essa alimentação saudável, aliada a falta de atividade física, porque academia também é luxo, somando-se ao cigarro (para os jornalistas fumantes), e cria-se uma geração inteira de criaturas hipertensas, obesas e neurastênicas. Depois ainda me perguntam por que jornalista é estressado. Por que será heim?

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

complemento do post abaixo...

Bom mesmo seria que cada jornalista tivesse o seu próprio jornal. Parece absurdo, mas a lógica da coisa é que cada um quer fazer do seu jeito, porque seu jeito é o certo e, é o que vai dar certo!! Da mistura, em determinados momentos bem caótica, de jeitos nasce o jornal que vai para a rua no dia seguinte, o programa na TV, o portal na web, o boletim da rádio, a revista... Lidar com tantos jeitos, com tantos egos, porque ego é o segundo sobrenome dos jornalistas - e eu me incluo no pacote -, é um negócio que dá um trabalho danado para administrar. Tem dias que amo o jornalismo com profundidade de mãe e intensidade de amante. Em outros momentos, há quem se esforce para me fazer deixar de gostar da profissão. Ás vezes até conseguem. Mas sempre fica a sementinha ali, latente, esperando só o sinal da primeira chuva.

Planejamento de cobertura é igual a armar quebra-cabeças...

...sempre falta uma peça e geralmente, só nos damos conta quando a cobertura já começou. No olho do furacão, com todos os fatos se desenrolando, só nos resta respirar fundo e improvisar. O bom de todo planejamento é que sempre sobra espaço para o plano b, ou c, ou d... Eleições, Carnaval (ainda mais em Salvador), festivais de cultura, festas juninas, olimpiadas, copa do mundo, jogos pan-americanos, GP de fórmula 1...a imprensa vive de um calendário fixo entremeado de eventos factuais que pipocam aqui e ali. "Ah, mas todo ano todos esses eventos são iguais". Quem dera fossem mesmo. O leitor sem memória nem iria perceber que repetimos as mesmas matérias. Só que, nós, os jornalistas, os viciados em trabalho, workholics convictos e orgulhosos, sabemos e temos memória. Além disso, quem disse que fazemos jornal para o leitor? Fazemos para outros jornalistas, para mostrar à concorrência que o nosso produto é melhor. Ainda assim, nada supera o prazer de montar o quebra-cabeças de uma grande cobertura, ainda que faltem peças que só serão notadas no meio da transmissão ao vivo, vale a pena receber essa descarga adicional de adrenalina no sangue. O efeito dura pouco. Os acertos no jornalismo duram o tempo de vida de uma notícia e os erros são tão eternos quanto o tempo. Mas vale o risco. É a mesma sensação de um técnico de futebol, de um general armando uma batalha (na época que as batalhas eram ganhas de forma honesta e respeitavam-se protocolos e feriados). É a sensação do dever cumprido. No final, com peças faltando ou sem, fica sempre o gostinho de "conseguimos mais vez" e o friozinho na espinha, de ansiedade, pelo próximo desafio.

sexta-feira, 18 de julho de 2008

Caminhos virtuais do jornalismo

O jornalismo na internet é uma via de mão dupla. Se por um lado, perseguimos a audiência, por outro, as técnicas para tornar as páginas visíveis e destacadas nos buscadores tornam o texto jornalístico cada vez mais pobre, muito teórico, pouco criativo. Eis uma forma simplista de encarar a questão.

O pulo do gato é saber aliar as exigências técnicas para alcançar as primeiras posições nos buscadores, com o "molho" que torna o texto não apenas informativo, mas delicioso de ler, prazerosamente degustável.

O que se exige do profissional não é mais e apenas um texto criativo, mas a capacidade de subjugar a máquina e fazer da tecnologia, o que ela de fato é: um instrumento - e para os entusiastas, dos mais fabulosos que existem -, que se usado com sabedoria, revela por trás das tags e códigos html, as expressões da alma humana.

Não é juntar-se ao inimigo, para quem ainda vê a internet como oponente, mas aliar-se a ele, trazê-lo para o lado de cá, moldá-lo à nossa vontade e ampliar as possibilidades criativas da profissão.

quarta-feira, 16 de julho de 2008

Convergência via msn

Durante uma aula, discutindo convergência, integração multimídia, jornalismo cidadão (feito em colaboração ou pela própria audiência) e como planejar coberturas que se interliguem ao mesmo tempo na web, no jornal impresso, rádio e tv aberta e que tenham alto índice de interatividade, lembrei de um dia de chuva, dois meses atrás, em que tive uma saudável discussão via msn com uma amiga e ex-colega.

A polêmica começou porque, para estimular a audiência a enviar relatos das agruras vividas durante o temporal, decidi relatar o que eu mesma tinha vivido, em primeira pessoa, despindo -me da capa de jornalista para revelar a cidadã que anda de ônibus e vive numa capital com problemas de infra-estrutura urbana históricos. Não satisfeita, decidi incentivar outras pessoas da minha equipe a fazer o mesmo e em pouco tempo, estávamos recebendo relatos inusitados escritos por gente que enfrentou os mais diversos problemas.

Minha amiga considerou piegas e até de mau-gosto o resultado da cobertura feita em primeira pessoa. Na época, usei vários argumentos demonstrando meu ponto de vista e ela usou igual quantidade de argumentos para me provar o seu. Aprendi muito naquele dia, embora mantenha minha crença de que o caminho é trazer cada vez mais a audiência para dentro da notícia como protagonista.

O mais interessante é perceber que a discussão divide outras opiniões e que tanto existem jornalístas que tem opiniões semelhantes a minha quanto existem aqueles que rezam pela cartilha da minha amiga. O denominador comum talvez esteja bem próximo de ser encontrado, mas enquanto isso não acontece, vou experimentando o fazer notícia nas suas diversas formas.

No link, o texto que provocou a discussão teórico-filosófica:

Trabalhar em dia de chuva, valha-me deus!

"Jornalismo se faz na rua"

A frase acima não é minha. Na verdade creio que não tenha um dono específico, é mais uma daquelas expressões cunhadas no ambiente das redações. Mas essa semana a ouvi de um professor espanhol, durante uma palestra, e ao escutá-la, lembrei de um ex-colega de faculdade, também ex-colega de redação.

Fomos criados na rua, eu e este colega e mais centenas de jornalistas. A nossa geração é aquela situada entre os 30 e os 40 anos. Fomos para a rua cavar pautas, sentávamos no meio fio para conversar com as pessoas, ouvi-las e extrair delas o que de mais impressionante pode existir no cotidiano aparentemente sem graça. Portanto, nos consideramos "jornalistas de verdade".

Diante da nova geração, da turma na casa dos 20, nos sentimos meio tios, meio mestres, meio deslocados. Não falamos a lingua internética tão bem quanto os repórteres de agora, mas perseguimos a rede com sofreguidão, dispostos a aprender seus caminhos tortuosos e virtuais.

Durante a palestra, o mesmo professor espanhol chamou a nova geração de jornalistas-google. Meu ex-colega dizia a mesma coisa, as vezes até irritava outros colegas com as piadas sobre reportagens control c + control v. Destilava preconceito contra a internet - não, ele não faz parte do grupo de "tiozinhos" que tenta a todo custo aprender e apreender a rede.

Tenho de concordar com o professor espanhol e por tabela com o meu ex-colega, e admitir que atualmente existe uma preguiça desesperadora nas redações. Preguiça da geração atual, que, correndo o risco de ser saudosista, me parece meio apática, meio "aaah, fiz jornalismo porque achei que era cool". Desesperador para os apaixonados pela profissão, para os que não vivem sem a "cachaça" da notícia.

É apatia geral? Lógico que não. Todos os novos jornalistas, recém saidos da faculdade e das fraldas, eles entram na escola cada vez mais novinhos, são jornalistas-google? Também não. Para quê tentar reiventar a roda se nesse caso uma obviedade gritante resolve a questão? Lá vai a obviedade: Toda regra tem exceção.

Conheço jovens jornalistas brilhantes, conheço velhos jornalistas acomodados a ponto de criar raízes. Mas como hábito ruim é contagioso, percebo que cada vez mais existem novos jornalistas buscando o meio mais fácil de fazer notícia e notícia, na minha opinião, não é fácil pelo simples fato de que reflete a vida e a vida, até para ser divertida, mescla períodos de calmaria relaxantes e necessários, com outros daquela turbulência que nos força a rever posturas, refazer, reeditar, inventar, descobrir, enfim, caminhar para frente.