Da série, o passado toca no dvd player ao lado
Uma menina de nove anos, nos idos de 1983, ouve uma música romântica de doer, com uma letra que ela não entende muito bem. O cantor tem um sotaque engraçado e como o lugar mais longe onde a menina já tinha ido na vida era São Paulo, ela acredita que ele é paulista. O rapaz usa maquiagem nos olhos, mas quase todos os cantores de que a menina gosta usam. E, como ela é muito nova para usar maquiagem, pensa que lápis nos olhos é coisa de homem. O mistério daquele música não sai da cabeça da menina, ela quer entender sobre o que o cantor fala, mas seus livros com as histórias da Casinha Feliz não são nem de longe parecidos com a letra da cantiga. Vinte e cinco anos depois, no vai-e-vem de um ponto de ônibus muito cheio, um dvd player toca a mesma música. Na tela do aparelho, cenas que tentam traduzir "literalmente" cada verso da canção. Fotos de gosto duvidoso, tiradas de algum encarte publicitário de motel, exibidas naquele modelo pps que tanto irrita quem usa email para algo mais útil que mandar correntes e mensagem para os amigos, fazem a mulher adulta - que agora já sabe que o sotaque de Ritchie era inglês - pensar com seus botões: "que bom que eu não entendi essa música naquela época". Não queridos leitores, não estou cuspindo no prato dos anos 80, até porque, adoro aquela época de muito gel e new wave. Como eu era criança, achava tudo muito lindo. Quanto mais colorido, melhor! Só que, se eu soubesse o quanto Menina Veneno tem uma letra engraçada aos nove anos, não teria me divertido tanto ao ouvi-la 25 anos depois, no meio da rua. Percebi - santa lerdeza batman! - que a letra dessa música realmente foi escrita por um inglês que tentou fazer poesia em português, mas devia estar usando um dicionário em qualquer outro idioma, menos no nosso. Vocês já tentaram traduzir uma canção do inglês para o português palavra por palavra? A sensação que eu tenho é que Ritchie fez a mesma coisa ao inverso e, ao botar no papel palavras como vermelho, por exemplo, saiu abajur "cor de carne". Que diabos é um abajur cor de carne? Estão achando que eu sou má? Pois encontrei um vídeo no youtube. Na verdade, um áudio com uma foto do Ritchie. Sim, ele está usando lápis, no melhor estilo Duran Duran.
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sábado, 13 de dezembro de 2008
quarta-feira, 10 de dezembro de 2008
Ato prosaico
Com quantas pequenas ações se faz uma existência? Que mínimas experiências estão por trás da simplicidade de um gesto do cotidiano? A cantilena do vassoureiro, com todas as suas variações de tom da melodia, me fez lembrar o quanto de beleza ainda existe na vida ordinária.
domingo, 7 de dezembro de 2008
Conversa estranha na calada da noite
Da série, minhas pequenas aventuras do viver
Aconteceu há quase 12 anos. Era aluna da UFBA e no meu tempo, as aulas espalhavam-se ao longo do dia: duas de manhã, uma terceira no meio da tarde, mais duas à noite. Não sei que malabarismos éramos capazes de fazer para estudar e trabalhar, mas alguns estudantes conseguiam. Devo ter perdido os poderes mágicos que me permitiam controlar o tempo, porque nunca mais na vida consegui ser tão multitarefas quanto na época da faculdade. A aula naquela noite estava prevista para terminar às 21h, mas o professor era daqueles apaixonados pela disciplina e os alunos, ávidos por aprender. A aula terminou às 22h30. Nas imediações do campus do Canela não havia ônibus que me levasse para casa. O jeito era andar até o Forte de São Pedro e esperar no ponto próximo à descida da ladeira da Contorno. Para quem não é de Salvador, meus parcos conhecimentos geográficos não permitem descrição mais detalhada. Basta que saibam que o lugar era deserto, muito deserto. Era um tempo na minha vida em que faltava dinheiro para táxi. Até porque, tinha de sobrar para fraldas. Estava no sétimo mês de gravidez, no penúltimo semestre do curso de jornalismo. Meu salário de estagiária em uma empresa de assessoria de comunicação não permitia luxo. Encarei o ponto de ônibus deserto com desconfiança. As muralhas negras do Forte de São Pedro pareciam saídas de um filme do expressionismo alemão. Pensei que daria de cara com Nosferatus, mas o que aconteceu foi um pouco mais surreal e perfeitamente possível, dentro da realidade de uma cidade grande, depois das 22h. Um homem se aproximou de mim, parou na minha frente e disse: "eu ía assaltar a senhora, mas eu não assalto mulher grávida, porque ela pode levar um susto e perder a criança". Eu não sabia se batia no ladrão e gritava "seu... você já me deu um susto", ou se corria. Não bati no homem e também não corri, porque a barriga não deixaria mesmo que eu tentasse. Respirei fundo e respondi: "olha moço, eu acabo de sair da aula e só tenho aqui um passe estudantil pra ir pra casa. Aqui tem minha mochila, se o senhor quiser olhar, pode olhar, mas só tem dois livros que peguei na biblioteca da faculdade, um caderno e um estojo de lápis. Repare que não uso bolsa, nem tenho carteira. Se o senhor levar meu passe eu vou ter de ir para casa à pé, mas com essa barrigona vai ser meio complicado porque eu moro longe, no subúrbio". Essa parte do subúrbio era mentira, melhor dizendo, meia-verdade. Nasci e passei metade da infância na periferia de Salvador, meu pai ainda vivia no subúrbio, mas eu já morava em um bairro central naquela época. Achei que precisava fazer um drama e convencer o ladrão de que eu não era bom negócio. Deu certo, o assaltante ficou com pena. Disse que ficaria ali me fazendo companhia até o meu ônibus passar. "É para evitar que algum malandro venha fazer mal pra senhora, eu tenho um respeito muito grande por mulher grávida". Eu não sabia se ria da situação exdrúxula em que havia me metido ou se chorava, porque meu ônibus ía passar e o ladrão veria que eu menti. Meu medo era ficar marcada e ele desconsiderar a barriga e me assaltar numa próxima saída da aula. Continuamos batendo papo. O ladrão falava e eu sacudia a cabeça, concordando com tudo o que ele dizia. Não tirava o olho da esquina de onde viria o ônibus e não sabia se rezava para o coletivo chegar logo ou não chegar. Uma coisa eu pedia a Deus, "não mande nenhum ônibus de bairros suburbanos. O senhor tem mãe!". Devia ser mais um daqueles dias em que Deus está de ouvidos desentupidos ou então no silêncio da noite, só tinha mesmo aquela quase-mãe de 22 anos ali parada no meio da rua, tentando lembrar orações da infância ("santo anjo do senhor...") e o pai de todos ficou comovido. Quase meia-hora depois, enquanto eu ouvia o ladrão monologar sobre a dura vida de assaltante, um casal se aproximou para também esperar um coletivo. Logo em seguida, apareceu mais um homem. O ladrão então bateu no meu ombro e disse: "agora a senhora tem companhia demais, já vou viu. Avise para o pai desse moleque que ele tem obrigação de vir buscar a mulher na escola". Achei desnecessário explicar ao ladrão que tratava-se de uma produção independente.
Aconteceu há quase 12 anos. Era aluna da UFBA e no meu tempo, as aulas espalhavam-se ao longo do dia: duas de manhã, uma terceira no meio da tarde, mais duas à noite. Não sei que malabarismos éramos capazes de fazer para estudar e trabalhar, mas alguns estudantes conseguiam. Devo ter perdido os poderes mágicos que me permitiam controlar o tempo, porque nunca mais na vida consegui ser tão multitarefas quanto na época da faculdade. A aula naquela noite estava prevista para terminar às 21h, mas o professor era daqueles apaixonados pela disciplina e os alunos, ávidos por aprender. A aula terminou às 22h30. Nas imediações do campus do Canela não havia ônibus que me levasse para casa. O jeito era andar até o Forte de São Pedro e esperar no ponto próximo à descida da ladeira da Contorno. Para quem não é de Salvador, meus parcos conhecimentos geográficos não permitem descrição mais detalhada. Basta que saibam que o lugar era deserto, muito deserto. Era um tempo na minha vida em que faltava dinheiro para táxi. Até porque, tinha de sobrar para fraldas. Estava no sétimo mês de gravidez, no penúltimo semestre do curso de jornalismo. Meu salário de estagiária em uma empresa de assessoria de comunicação não permitia luxo. Encarei o ponto de ônibus deserto com desconfiança. As muralhas negras do Forte de São Pedro pareciam saídas de um filme do expressionismo alemão. Pensei que daria de cara com Nosferatus, mas o que aconteceu foi um pouco mais surreal e perfeitamente possível, dentro da realidade de uma cidade grande, depois das 22h. Um homem se aproximou de mim, parou na minha frente e disse: "eu ía assaltar a senhora, mas eu não assalto mulher grávida, porque ela pode levar um susto e perder a criança". Eu não sabia se batia no ladrão e gritava "seu... você já me deu um susto", ou se corria. Não bati no homem e também não corri, porque a barriga não deixaria mesmo que eu tentasse. Respirei fundo e respondi: "olha moço, eu acabo de sair da aula e só tenho aqui um passe estudantil pra ir pra casa. Aqui tem minha mochila, se o senhor quiser olhar, pode olhar, mas só tem dois livros que peguei na biblioteca da faculdade, um caderno e um estojo de lápis. Repare que não uso bolsa, nem tenho carteira. Se o senhor levar meu passe eu vou ter de ir para casa à pé, mas com essa barrigona vai ser meio complicado porque eu moro longe, no subúrbio". Essa parte do subúrbio era mentira, melhor dizendo, meia-verdade. Nasci e passei metade da infância na periferia de Salvador, meu pai ainda vivia no subúrbio, mas eu já morava em um bairro central naquela época. Achei que precisava fazer um drama e convencer o ladrão de que eu não era bom negócio. Deu certo, o assaltante ficou com pena. Disse que ficaria ali me fazendo companhia até o meu ônibus passar. "É para evitar que algum malandro venha fazer mal pra senhora, eu tenho um respeito muito grande por mulher grávida". Eu não sabia se ria da situação exdrúxula em que havia me metido ou se chorava, porque meu ônibus ía passar e o ladrão veria que eu menti. Meu medo era ficar marcada e ele desconsiderar a barriga e me assaltar numa próxima saída da aula. Continuamos batendo papo. O ladrão falava e eu sacudia a cabeça, concordando com tudo o que ele dizia. Não tirava o olho da esquina de onde viria o ônibus e não sabia se rezava para o coletivo chegar logo ou não chegar. Uma coisa eu pedia a Deus, "não mande nenhum ônibus de bairros suburbanos. O senhor tem mãe!". Devia ser mais um daqueles dias em que Deus está de ouvidos desentupidos ou então no silêncio da noite, só tinha mesmo aquela quase-mãe de 22 anos ali parada no meio da rua, tentando lembrar orações da infância ("santo anjo do senhor...") e o pai de todos ficou comovido. Quase meia-hora depois, enquanto eu ouvia o ladrão monologar sobre a dura vida de assaltante, um casal se aproximou para também esperar um coletivo. Logo em seguida, apareceu mais um homem. O ladrão então bateu no meu ombro e disse: "agora a senhora tem companhia demais, já vou viu. Avise para o pai desse moleque que ele tem obrigação de vir buscar a mulher na escola". Achei desnecessário explicar ao ladrão que tratava-se de uma produção independente.
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sexta-feira, 5 de dezembro de 2008
Cheiro de chuva
Da série, existe a natureza escondida entre o concreto

Por baixo das quinquilharias coloridas que cobrem o tapete de plástico do vendedor ambulante; por baixo do tapete que cobre a sujeira grudada sobre o granito da praça; por baixo do granito da praça que cobre uma fina camada de cimento; por baixo da camada de cimento que cobre o barro vermelho e batido; por baixo do barro vermelho batido, dentro da terra negra; por cima do cheiro de óleo diesel, churrasquinho, churros, pipoca e hot-dog, senti o odor da infância, da terra molhada, da chuva.

Por baixo das quinquilharias coloridas que cobrem o tapete de plástico do vendedor ambulante; por baixo do tapete que cobre a sujeira grudada sobre o granito da praça; por baixo do granito da praça que cobre uma fina camada de cimento; por baixo da camada de cimento que cobre o barro vermelho e batido; por baixo do barro vermelho batido, dentro da terra negra; por cima do cheiro de óleo diesel, churrasquinho, churros, pipoca e hot-dog, senti o odor da infância, da terra molhada, da chuva.
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quinta-feira, 4 de dezembro de 2008
Cachoeira - Bahia - Brasil
O novo livro do jornalista Armando Avena, Recôncavo, é ambientado em Cachoeira. Recebi um exemplar na redação, mandado pela assessoria de comunicação do autor. Um trecho da obra, impressa na contracapa: "Na primeira fila do auditório do Stockholm Convention Center, na Suécia, enquanto aguarda ser chamado pelo mestre-de-cerimônias, o primeiro escritor brasileiro a receber o Prêmio Nobel de Literatura surpreende-se ao distinguir no palco os personagens que fizeram sua história na cidade de Cachoeira, no recôncavo baiano. E eles estão lá para dizer que o prêmio não lhe pertence."
XXXXXXXXXXXXXXXXXXX
Reminiscências: A primeira vez que vi o rio paraguaçu tinha dois anos. Não lembro, mas me contaram que tomei banho naquele rio. Muitas outras vezes vi o paraguaçu, que está morrendo vítima da poluição, do descaso, da ação do homem, quando fazia reportagens sobre as histórias do recôncavo: a Boa Morte, os antigos engenhos, o forte da salamina. Numa das últimas vezes, minha alma ficou no rio, encantada com a beleza daquelas ilhas. No meu devaneio, queria restaurar uma antiga capela do século XVI e lá me casar. Não vi nenhum boto, mas o pescador que me acompanhava jura que ali no fundo, misturado à lama e aos mariscos, tem navio pirata afundado.
XXXXXXXXXXXXXXXXXX
Direto do túnel do tempo: Certa vez me flagraram anotando trechos de uma reportagem, sentada sob o batente de cimento que cerca uma mangueira, à beira do paraguaçu.

P.S.: O poema foi uma gentileza que eu não merecia
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Reminiscências: A primeira vez que vi o rio paraguaçu tinha dois anos. Não lembro, mas me contaram que tomei banho naquele rio. Muitas outras vezes vi o paraguaçu, que está morrendo vítima da poluição, do descaso, da ação do homem, quando fazia reportagens sobre as histórias do recôncavo: a Boa Morte, os antigos engenhos, o forte da salamina. Numa das últimas vezes, minha alma ficou no rio, encantada com a beleza daquelas ilhas. No meu devaneio, queria restaurar uma antiga capela do século XVI e lá me casar. Não vi nenhum boto, mas o pescador que me acompanhava jura que ali no fundo, misturado à lama e aos mariscos, tem navio pirata afundado.
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Direto do túnel do tempo: Certa vez me flagraram anotando trechos de uma reportagem, sentada sob o batente de cimento que cerca uma mangueira, à beira do paraguaçu.
P.S.: O poema foi uma gentileza que eu não merecia
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domingo, 30 de novembro de 2008
"Meu marido é o meu dinheiro"
Da série, histórias que a minha mãe conta
Minha mãe nasceu em 1935. Nossa diferença de idade é o motivo pelo qual tenho um livro de histórias humano, falante, risonho e com cerca de um metro e cinqüênta e sete de altura, dentro de casa. As histórias que ela conta me revelam o mundo em cores que nenhum livro conseguiria criar, por mais criativo que seja seu autor. Dia desses, ela me contava que era uma moça rebelde, nos idos da década de 50, quando a boa educação - ditada pelo patriarcalismo, machismo e outros ismos da nossa sociedade - mandava que as moças fossem muito obedientes, muito recatadas, muito submissas. Como todo taurino que se preza, ainda mais uma que está bem na cúspide de Touro com Gêmeos, minha mãe pode ser um pouco de tudo, menos submissa. Ela me contava que aos 19 anos, morando no interior, filha de um dono de alambique que trazia as meninas na rédea curta e soltava os meninos-homens como bons predadores pela vizinha (a frase preferida do meu avô era "prendam suas novilhas, porque meus garrotes estão soltos", daí vocês tiram o tipo de homem que ele era, fruto do seu tempo), ela decidiu que queria trabalhar. Discute dali, discute daqui, eu vou, você não vai...meu avô dispara essa pérola do anedotário "machão do interior": "Você tem é de casar, ter filhos, cuidar do seu marido, moça direita faz assim". Minha mãe, que apesar de pequena é aguerrida desde nova, bateu o pezinho tamanho 35 no chão e revidou: "Papai, meu marido é o meu dinheiro. Eu sou independente, não vou ficar na sombra de homem nenhum". E não ficou mesmo. Criou duas filhas sem ficar na sombra do pai delas.
Minha mãe nasceu em 1935. Nossa diferença de idade é o motivo pelo qual tenho um livro de histórias humano, falante, risonho e com cerca de um metro e cinqüênta e sete de altura, dentro de casa. As histórias que ela conta me revelam o mundo em cores que nenhum livro conseguiria criar, por mais criativo que seja seu autor. Dia desses, ela me contava que era uma moça rebelde, nos idos da década de 50, quando a boa educação - ditada pelo patriarcalismo, machismo e outros ismos da nossa sociedade - mandava que as moças fossem muito obedientes, muito recatadas, muito submissas. Como todo taurino que se preza, ainda mais uma que está bem na cúspide de Touro com Gêmeos, minha mãe pode ser um pouco de tudo, menos submissa. Ela me contava que aos 19 anos, morando no interior, filha de um dono de alambique que trazia as meninas na rédea curta e soltava os meninos-homens como bons predadores pela vizinha (a frase preferida do meu avô era "prendam suas novilhas, porque meus garrotes estão soltos", daí vocês tiram o tipo de homem que ele era, fruto do seu tempo), ela decidiu que queria trabalhar. Discute dali, discute daqui, eu vou, você não vai...meu avô dispara essa pérola do anedotário "machão do interior": "Você tem é de casar, ter filhos, cuidar do seu marido, moça direita faz assim". Minha mãe, que apesar de pequena é aguerrida desde nova, bateu o pezinho tamanho 35 no chão e revidou: "Papai, meu marido é o meu dinheiro. Eu sou independente, não vou ficar na sombra de homem nenhum". E não ficou mesmo. Criou duas filhas sem ficar na sombra do pai delas.
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domingo, 16 de novembro de 2008
Passado no quarto ao lado
E um belo dia, a gente cresce. Aquele amigo caçula do cursinho de inglês, com quem você falava de música, quadrinhos e cinema, agora é um dos melhores amigos da sua irmã mais nova. No quarto ao lado, o amigo crescido e também a namorada jogam conversa fora, riem alto, têm afinidades com os quadrinhos, filmes, músicas e brinquedos da sua irmã. Que dúvida shakespeareana: falar ou não falar, eis a questão? Vou lá e digo oi, tudo bem, quanto tempo e blá blá blá? Decido ficar na minha e entendo que amadurecer é abrir mão de vários vínculos ao longo da trajetória, senão é impossível criar laços novos. Aos 15 era de um jeito, aos 34, de outro completamente diferente. A começar pelo fato de ter idade para ter um filho de 15! O amigo, também na casa dos 30, um pouco menos que eu, deve sentir a mesma coisa, ou então nem percebeu nada, a não ser a breve nostalgia do encontro por acaso no meio do corredor. "Quanto tempo..."
O tempo é mágico. Lentamente somos esculpidos por ele e nem nos damos conta. E um belo dia, a gente cresce...
O tempo é mágico. Lentamente somos esculpidos por ele e nem nos damos conta. E um belo dia, a gente cresce...
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domingo, 2 de novembro de 2008
No buzú I - Aperta que dá
Da série, universo ao meu redor
"Não abra mais a porta motô, aqui não cabe mais ninguém". Lata de sardinha, lata de gente, Luis Anselmo/Pituba, sucursal do inferno em forma de ônibus. Uma cena que pensei ter ficado para trás, na adolescência, na época do famigerado Itinga/Pituba, meados dos anos 90, retorna para assombrar os tempos modernos: gente pendurada na porta, equilibrio precário, a qualquer hora um despenca, lá se vai o motorista responder processo e as assistentes sociais da empresa de transportes engabelar a família que perdeu o parente.
"Aperta que dá minha gente, vamo passando aí..." - o cobrador estimula. "Só se um viajar na cabeça do outro, não tá vendo que não cabe", responde a passageira indignada. "Quando subir a ladeira da cruz da redenção melhora pessoal, vamo colaborar", continua o cobrador.
Certas histórias são cíclicas em Salvador, essa do ônibus lotado é uma delas.
"Não abra mais a porta motô, aqui não cabe mais ninguém". Lata de sardinha, lata de gente, Luis Anselmo/Pituba, sucursal do inferno em forma de ônibus. Uma cena que pensei ter ficado para trás, na adolescência, na época do famigerado Itinga/Pituba, meados dos anos 90, retorna para assombrar os tempos modernos: gente pendurada na porta, equilibrio precário, a qualquer hora um despenca, lá se vai o motorista responder processo e as assistentes sociais da empresa de transportes engabelar a família que perdeu o parente.
"Aperta que dá minha gente, vamo passando aí..." - o cobrador estimula. "Só se um viajar na cabeça do outro, não tá vendo que não cabe", responde a passageira indignada. "Quando subir a ladeira da cruz da redenção melhora pessoal, vamo colaborar", continua o cobrador.
Certas histórias são cíclicas em Salvador, essa do ônibus lotado é uma delas.
No buzú II - Uma ajuda pelo amor de Deus
Da série, universo ao meu redor
Alô, Deus, você está aí? Tem um homem de moletas aqui neste ônibus, com uma ferida horrenda na perna, com as mãos estendidas pedindo "uma caridade em Seu Nome". Você ouviu o homem? Deus, alô.... ligação ruim. Não se preocupe, cuide dos seus assuntos celestes, eu ouvi o homem.
Alô, Deus, você está aí? Tem um homem de moletas aqui neste ônibus, com uma ferida horrenda na perna, com as mãos estendidas pedindo "uma caridade em Seu Nome". Você ouviu o homem? Deus, alô.... ligação ruim. Não se preocupe, cuide dos seus assuntos celestes, eu ouvi o homem.
No buzú III - Caminhos de Periperi
Da série, universo ao meu redor
Minha tia mora longe. O caminho até sua casa, até o reencontro com a infância, é longo. Avenida San Martin, tabuletas de lojas de ferragens; Calçada, o belo prédio da estação de trens; Feira do Rato, micro-cosmo de mercadorias lícitas e nem tão honestas; Lobato, me chama atenção a creche Heroinas do Lar, das pobres e aguerridas mães suburbanas. Itacanhara; uma nesga de mar azul; extensão interminável da recém asfaltada avenida suburbana...
Na casa de titia, ajudante de cozinha, como boa baiana, embora desbotada, provo que sei mexer um vatapá. "Não esqueça os pedidos na hora de servir o caruru dos meninos". Não esqueço. Peço muito, embora setembro tenha ficado para trás, ainda é tempo de celebrar os ibejis.
Minha tia mora longe. O caminho até sua casa, até o reencontro com a infância, é longo. Avenida San Martin, tabuletas de lojas de ferragens; Calçada, o belo prédio da estação de trens; Feira do Rato, micro-cosmo de mercadorias lícitas e nem tão honestas; Lobato, me chama atenção a creche Heroinas do Lar, das pobres e aguerridas mães suburbanas. Itacanhara; uma nesga de mar azul; extensão interminável da recém asfaltada avenida suburbana...
Na casa de titia, ajudante de cozinha, como boa baiana, embora desbotada, provo que sei mexer um vatapá. "Não esqueça os pedidos na hora de servir o caruru dos meninos". Não esqueço. Peço muito, embora setembro tenha ficado para trás, ainda é tempo de celebrar os ibejis.
No buzú IV - A mousse
Da série, "universo ao meu redor"
Experimento a proeza de transportar uma mousse de chocolate, dentro de um ônibus, da Vila Laura até a rua Oito de Dezembro, na Graça. Doeram os braços, mas valeu a pena ver as carinhas de felicidade, os gemidos de prazer, a gula daquelas meninas.
Experimento a proeza de transportar uma mousse de chocolate, dentro de um ônibus, da Vila Laura até a rua Oito de Dezembro, na Graça. Doeram os braços, mas valeu a pena ver as carinhas de felicidade, os gemidos de prazer, a gula daquelas meninas.
sexta-feira, 31 de outubro de 2008
Hamburguer de baiano
Da série, querido diário
No meu caminho para casa, na hora do rush, a moeda solitária vira um acarajé sem camarão. Ansiedade pela noite de sexta-feira, provocada pelo barulho na rua, trânsito congestionado, alunos entrando e saindo do campus de uma faculdade, vendedor de cachorro-quente na esquina, cheiro enjoado de molho de tomate dormido. Uma música, Loreenna Mckennitt, uma pequena paixão que divido com um caro amigo. Ele ouvia Loreenna para lembrar de mim, eu a ouço para esquecer quem sou, para me transportar para as paisagens medievais da Irlanda, que eu nunca vi de perto, pelo menos não nesta vida. O acarajé está bom. Massa leve, crocante, faz tempo que não como um tão bem feito. A pimenta fere a língua, mas certas feridas são boas de carregar, outras custam bastante. Noite de nostalgia, de entrega aos pensamentos melancólicos que vez por outra se insinuam. Contas a pagar, fim de mês também é época de contas, a matemática nunca foi meu forte. Dinheiro existe para gastar. Atravesso o estacionamento vazio de um centro comercial, ainda tem espaço no estômago para uma coisinha gelada. Cerveja?! Não, milk-sheik de morango. Bem gelado, o sorvete, que só é colocado no final, não derretou por completo, ficou bem pastoso, o gelo alivia o ardido da pimenta. Um riso, que mistura surreal, acarajé (hamburguer de baiano) com milk-sheik, bebida de adolescente americano. Ficou um gosto de infância, reminiscência de outras misturas esquisitas: biscoito doce com maionese era a preferida para acompanhar a sessão da tarde. Atravesso a praça em frente ao shopping mais conhecido da cidade. Virou território livre para os ambulantes que reelegeram o prefeito marionete. Churrasquinho de gato, bolsas de gosto duvidoso, uma cantora evangélica tenta me vender a sua fé que eu não quero comprar. Do outro lado da praça, pagodão de letra impublicável. No ponto de ônibus, muitos rostos, uma mãe vestida num longo roxo segura um garoto de mochila nas costas. Mais ambulantes. Gente cansada, gente absorta nos próprios pensamentos, universos ao meu redor, com o perdão da licença poética a la Marisa Monte. Vem o ônibus, vazio, ou quase. Tem lugar para sentar. Experimento o transe de me saber no mundo e sentir-me fora dele. Enxergo a paisagem, mas na minha memória ela é igual, porém diferente. Observo as casas, as ruas, e Loreenna continua me levando para longe...
No meu caminho para casa, na hora do rush, a moeda solitária vira um acarajé sem camarão. Ansiedade pela noite de sexta-feira, provocada pelo barulho na rua, trânsito congestionado, alunos entrando e saindo do campus de uma faculdade, vendedor de cachorro-quente na esquina, cheiro enjoado de molho de tomate dormido. Uma música, Loreenna Mckennitt, uma pequena paixão que divido com um caro amigo. Ele ouvia Loreenna para lembrar de mim, eu a ouço para esquecer quem sou, para me transportar para as paisagens medievais da Irlanda, que eu nunca vi de perto, pelo menos não nesta vida. O acarajé está bom. Massa leve, crocante, faz tempo que não como um tão bem feito. A pimenta fere a língua, mas certas feridas são boas de carregar, outras custam bastante. Noite de nostalgia, de entrega aos pensamentos melancólicos que vez por outra se insinuam. Contas a pagar, fim de mês também é época de contas, a matemática nunca foi meu forte. Dinheiro existe para gastar. Atravesso o estacionamento vazio de um centro comercial, ainda tem espaço no estômago para uma coisinha gelada. Cerveja?! Não, milk-sheik de morango. Bem gelado, o sorvete, que só é colocado no final, não derretou por completo, ficou bem pastoso, o gelo alivia o ardido da pimenta. Um riso, que mistura surreal, acarajé (hamburguer de baiano) com milk-sheik, bebida de adolescente americano. Ficou um gosto de infância, reminiscência de outras misturas esquisitas: biscoito doce com maionese era a preferida para acompanhar a sessão da tarde. Atravesso a praça em frente ao shopping mais conhecido da cidade. Virou território livre para os ambulantes que reelegeram o prefeito marionete. Churrasquinho de gato, bolsas de gosto duvidoso, uma cantora evangélica tenta me vender a sua fé que eu não quero comprar. Do outro lado da praça, pagodão de letra impublicável. No ponto de ônibus, muitos rostos, uma mãe vestida num longo roxo segura um garoto de mochila nas costas. Mais ambulantes. Gente cansada, gente absorta nos próprios pensamentos, universos ao meu redor, com o perdão da licença poética a la Marisa Monte. Vem o ônibus, vazio, ou quase. Tem lugar para sentar. Experimento o transe de me saber no mundo e sentir-me fora dele. Enxergo a paisagem, mas na minha memória ela é igual, porém diferente. Observo as casas, as ruas, e Loreenna continua me levando para longe...
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quinta-feira, 30 de outubro de 2008
Lembrei de uma reportagem antiga
Lendo um conto da minha novíssima paixão, Neil Gaiman, lembrei de uma reportagem que escrevi uns seis ou sete anos atrás. Infelizmente, o material não está digitalizado ainda, escrevi para um jornal impresso, mas vou aproveitar uma tarde morna qualquer e testar meu scanner, quando aprender onde é que liga. A matéria falava sobre o uso de animais em experimentos científicos e das crueldades que a humanidade comete em nome do progresso e do conhecimento. Visitei um laboratório, vi dezenas de ratinhos criados para uso acadêmico. Um deles me comoveu profundamente. Era cego, vermelho, enrugado e totalmente sem pêlos. Uma modificação genética no bicho, para testar tratamento contra a calvície, fez o animalzinho nascer muito mirrado, quase esquelético, e, totalmente pelado. A cientista chefe, na ocasião, gastou todo o seu vernáculo para me convencer de que o ratinho não sentia dor ou frio. A matéria foi inspirada no coitado do rato-orelha, lembram dele? Implantaram uma orelha humana nas costas de um camundongo para testar drogas contra a rejeição em transplantes. A pequena aberração apareceu em cadeia nacional, rendeu capa de revista, manchete de jornal e muita postagem na web. A cena do rato andando com uma orelha nas costas também me veio à cabeça quando li Bolinhos de Bebê. O conto é duro, é cru. Estômagos sensíveis, essa não é leitura recomendada, mas é com certeza necessária.
Olha aqui o rato-orelha, para quem não lembrava:
Olha aqui o rato-orelha, para quem não lembrava:
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terça-feira, 14 de outubro de 2008
Vivo uma trilha sonora escrita pelo R.E.M

Da série, reminiscências
Faço parte da geração que tinha em Losing My Religion um hino. O engraçado é que a música dos meus 20 anos soa tão atual. Ainda me sinto "perdendo a paciência". O mundo está "destruindo-se ao redor dos nossos ouvidos", como sabiamente canta Mike Stipe em Radio Song, mas eu levo fé nessa "gente brilhante e feliz". Pensando bem, shiny happy people rende um belo toque de celular, hummm...
Tem dias que gostaria de ser tão louca quanto o Andy Kaufman. A loucura dele vinha do gênio (de brilhante, não de mal-criado. Tudo bem, ele era meio mal-criado, mas uma coisa não exclui a outra. Chaplin devia ser deliciosamente mal-criado, como todo ariano, e era um gênio, isso é fato). Man on the moon, a vida de Andy Kaufman by Mike Stipe, combina com as saídas do trabalho e as longas caminhadas em direção ao ônibus mais próximo. Engraçado que sempre penso no Charlie (Chaplin) quando ouço essa música.
As letras do Stipe não são das mais fáceis, admito, mas daí a um ex-namorado ter dito certa vez que as músicas do R.E.M são herméticas, é um exagero que atribuo ao choque de gerações. Não é fácil namorar alguém de 50 quando se tem menos de 30, soa quase como incesto.
Já ouvi também dizerem que todos os acordes do R.E.M tem sons parecidos, menos para mim. Ouço incansável a música dos meus 20 anos e descubro dia após dia que a minha biografia, escrita pelos versos de Fernando Pessoa, tem trilha sonora na voz de Mike Stipe.
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